Antes de a Orchid transformar o Hangar 110 em um campo de tensão permanente, a noite já havia sido colocada no eixo certo com a apresentação da Uniform, de Nova Iorque. Se o som dos nova-iorquinos difere do caos matemático e fragmentado dos bostonianos, a intensidade é exatamente a mesma. O que a Uniform apresentou foi um noise rock cru, poderoso e estrondoso, que devorou a roda punk em questão de minutos e sintonizou a casa na frequência exata que a noite exigia.
Sem concessões ou pausas desnecessárias, o show cumpriu seu propósito com precisão cirúrgica. Com apenas dois integrantes no palco, guitarra e voz, a banda construiu uma muralha sonora opressiva, sustentada por camadas de distorção, volume absurdo e uma sensação constante de colapso iminente. Em pouco mais de vinte minutos, o Hangar foi tomado por um verdadeiro festival de ruído, com picos notáveis de tensão que pareciam empurrar o sistema de som e o público até o limite.
Um dos momentos mais marcantes foi a versão de Symptom of the Universe, clássico do Black Sabbath, reinterpretado de forma brutal e sem reverência. A execução não precisou de esforço para fazer cabeças balançarem, punhos se erguerem , funcionando como um elo perfeito entre o peso primordial do metal e a abordagem abrasiva do noise contemporâneo. Foi uma abertura curta, direta e esmagadora, que não aqueceu o público, mas o lançou de vez no abismo.
Quando a Orchid subiu ao palco, o terreno já estava completamente preparado. A estreia da banda no Brasil, com ingressos esgotados, tinha tudo para ser especial, mas acabou indo além do esperado. O encontro entre um nome cultuado do screamo e um público que conhece cada ruptura do repertório transformou o Hangar em um espaço de catarse coletiva, onde expectativa e entrega caminharam juntas do início ao fim.
Formada em Massachusetts no fim dos anos 1990, a Orchid sempre ocupou um lugar singular dentro do hardcore, com estruturas fragmentadas, letras existencialistas e uma estética que flerta com o noise e o art punk. Mesmo após o encerramento das atividades em 2002, a influência da banda só cresceu, atravessando gerações e moldando boa parte do screamo e do post-hardcore que veio depois. A reunião reacendeu esse culto e transformou cada show em um evento quase ritualístico.
Desde a abertura com Big Battle, ficou claro que não haveria alívio. Le Desordre, C’est Moi e Aesthetic Dialectic vieram em sequência, instaurando um clima de colapso controlado que se manteve ao longo da apresentação. Lights Out, A Visit From Dr. Goodsex e Destination: Blood! mantiveram a intensidade sufocante, enquanto The Action Index e Don’t Rat Out Your Friends reforçaram o caráter político e sarcástico do repertório.
O set avançou como um manifesto. Loft Party e I Wanna Fight surgiram quase como respiros irônicos antes de Framecode e Epilogue of a Car Crash reacenderem a histeria coletiva. Ding Dong Dead, Invasion U.S.A. e Tigers soaram urgentes e atuais, seguidas por Weekend at the Fire Academy e Trail of the Unknown Body, que aprofundaram a sensação claustrofóbica da noite. New Ideas in Mathematics e Death of a Modernist mostraram a habilidade da banda em organizar o caos apenas o suficiente para mantê-lo em pé.
We Love Prison e Eye Gouger empurraram o público ainda mais para dentro do turbilhão, preparando o terreno para None More Black e Amherst Pandemonium, dividida em duas partes e recebida como um dos grandes ápices do show. Até a faixa tocada em fita, She Has a Cold, Cold Heart, funcionou como parte do espetáculo, criando um breve deslocamento antes do ataque final.
O encerramento com New Jersey vs. Valhalla, Anna Karina, I Am Nietzche, …And the Cat Turned to Smoke e Impersonating Martin Rev selou a noite sem concessões. Mais do que uma estreia no Brasil, o show foi a materialização de uma espera coletiva. Com a Uniform abrindo os trabalhos de forma implacável e a Orchid entregando tudo o que seu nome carrega, o Hangar 110 foi palco de uma noite histórica, dessas que não precisam de exagero para serem lembradas.