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Owen ::: 06/11/2025 ::: Jai Club
Postado em 19 de novembro de 2025 @ 01:37

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Na esteira da tão aguardada passagem do Cap’n Jazz por São Paulo, Mike Kinsella decidiu fazer um desvio intimista antes do caos coletivo: um show solo como Owen, apenas voz e violão, no Jai Club, em 6 de novembro. Para quem acompanha minimamente o universo emo/indie das últimas três décadas, ver um dos arquitetos do gênero tão perto, quase em clima de ensaio aberto, já seria motivo suficiente pra lotar a casa. Some a isso um repertório que passeia por fases diferentes da carreira e um público que sabe cada suspiro de cor, e o resultado é uma noite que parece mais um encontro de velhos amigos do que um simples show.

A noite começou com Cyro Sampaio, do Menores Atos, responsável por uma abertura elegante, enxuta e cheia de personalidade. Sozinho ao violão, Cyro exibiu aquela cartela de canções confessionais que o colocou no topo do emo nacional contemporâneo.

Músicas de sua carreira solo, faixas emblemáticas de sua banda e até covers improváveis formaram um set que já estabelecia o clima da noite: vulnerabilidade como força, sem firulas.

Há quase 25 anos, Kinsella transformou o Owen em válvula de escape para tudo que não cabia no American Football — ironia, melancolia, melodias intrincadas e relatos quase diarísticos, alinhados por um violão que oscila entre timidez e virtuosismo discreto. Desde então, o projeto virou referência obrigatória para quem entende o indie/emo como território de intimidade crua. E foi justamente isso que apareceu em São Paulo: o Owen sem maquiagem, sem banda, sem truques.

O set abriu com “Bad News”, clássico absoluto de At Home With Owen (2006), seguido por faixas de The Avalanche (2020), como “A New Muse” e “A Reckoning” — músicas que, ao vivo, perdem os arranjos de estúdio, mas ganham impacto emocional. É aí que Kinsella se aproxima daquela estética  que parecem cantar para si mesmos, mesmo diante de uma casa cheia.

Entre uma música e outra, o músico não se esconde: erra acordes, ri, comenta que “talvez tenha exagerado um pouco antes do show”, conversa com a plateia como quem está jogando conversa fora na calçada. Algo totalmente alinhado ao humor seco, meio desajeitado.

As canções mais antigas — “The Sad Waltzes of Pietro Crespi”, “Mount Cleverest”, “A Bird in Hand” — soam como pequenos capítulos de um diário que o artista insiste em reler ao vivo, mesmo sabendo que dói. O público, atento, canta baixo, respeitando o clima quase de recital.

Boa parte do público estava ali também pela assinatura que mudou o midwest emo. E Kinsella sabia disso. As versões acústicas de “Uncomfortably Numb” e “Home Is Where the Haunt Is” chegaram sem aviso, arrancando suspiros e coro coletivo. No Jai Club, cada acorde parecia deslocar o ar da sala — quase como se a banda inteira estivesse prestes a entrar, mas nunca entrasse.

“Never Meant”, claro, veio como apoteose sentimental: celulares erguidos, abraços espontâneos e aquela sensação de que o midwest emo, afinal, virou patrimônio afetivo de uma geração que enxerga em Kinsella uma espécie de cronista da saudade interminável.

A noite ainda trouxe pequenos presentes para os iniciados, como “Corbeau”, do projeto LIES, e “The Armoire”, uma das músicas mais subestimadas do catálogo do Owen.

No bis, Kinsella resolveu brincar com o roteiro: chamou um fã ao palco para tocar “Love Is Not Enough” — um gesto que beira o improviso total, mas que também reforça a humanidade imperfeita que define o Owen. Para fechar, em vez de um hit, ele plugou o celular no microfone e tocou uma demo caseira, uma colagem curiosa entre “Girls Just Want to Have Fun” e um trecho dos Smiths. Um final torto, íntimo, quase anticlimático.

O show solo de Owen em São Paulo foi um desses eventos que não dependem de banda, luz, telão ou grandes discursos. É música na forma mais vulnerável possível. Uma apresentação que captura tudo aquilo que fez Mike Kinsella um nome fundamental do indie americano: a mistura de humor involuntário, autoironia, falhas expostas e melodias que parecem ter sido escritas no exato momento em que eram sentidas.

No fim, quem saiu do Jai Club teve a rara sensação de ter assistido não apenas a um show, mas a um fragmento muito fiel do próprio artista “um belo retrato de um músico que confia mais na honestidade do que no espetáculo”.

Bad News
A New Muse
A Reckoning
The Sad Waltzes of Pietro Crespi
Dead for Days
A Bird in Hand
Mount Cleverest
Uncomfortably Numb (American Football cover) ((live debut apparently?))
Home Is Where the Haunt Is (American Football cover)
Hit and Run
Corbeau (LIES cover)
Wanting and Willing
The Armoire
Never Meant (American Football cover)
Encore:
Love Is Not Enough
((with audience member on the acoustic guitar))
Girls Just Want To Have Fun / The Smiths song (Demo recording played directly from Mike’s cellphone)

 
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