Texto e Fotos: Flavio Santiago
Poucos artistas atravessam décadas sem perder a capacidade de incomodar. O Public Image Ltd é um desses casos raros, e muito disso passa diretamente pela figura de John Lydon. Ícone do punk, anti-herói midiático e, acima de tudo, um verdadeiro popstar anticonsenso, Lydon construiu uma trajetória marcada por contradições e fez delas combustível artístico.
Desde o fim dos Sex Pistols, sua proposta com o PiL nunca foi repetir fórmulas, mas sim desmontá-las. Ao longo das décadas, a banda ajudou a moldar o pós-punk ao incorporar dub, experimentalismo e estruturas não convencionais, criando uma sonoridade que parecia feita para desafiar o próprio conceito de rock. Não por acaso, o grupo consolidou a ideia de fazer rock para tensionar os limites do próprio gênero, transformando desconstrução em linguagem.
Mas o mito nunca veio desacompanhado de tensão. Nos últimos anos, John Lydon voltou ao centro de debates por posicionamentos políticos controversos e declarações públicas que dividiram fãs. Ainda assim, no palco, ele continua sendo o mesmo provocador de sempre, capaz de, na mesma noite, sustentar discursos antissistema e reagir de forma imediata a situações inesperadas, mantendo viva a essência imprevisível que sempre o definiu.
Foi com esse histórico nas costas que o Public Image Ltd retornou ao Brasil após trinta e quatro anos de ausência, transformando o show no Cine Joia em um encontro quase simbólico entre passado e presente.
Se John Lydon segue como epicentro, o PiL atual funciona como um organismo coletivo extremamente eficiente. Ao seu lado, Lu Edmonds se destaca como peça-chave dessa engrenagem. Multi-instrumentista inquieto, Edmonds não apenas reproduz o passado da banda, mas o reinventa ao vivo, alternando entre guitarras, saz eletrificado e outras variações sonoras que ampliam o espectro musical do grupo.
Na base, Scott Firth sustenta o peso rítmico com linhas influenciadas por dub e funk, essenciais para o DNA da banda. Já na bateria, Mark Roberts assume a missão de recriar, com precisão e inventividade, as estruturas complexas que sempre caracterizaram o som do PiL, combinando elementos acústicos e eletrônicos.
O resultado é uma banda que, mesmo com décadas de estrada, soa atual, pulsante e longe de qualquer sensação de nostalgia acomodada.
A apresentação no Cine Joia começou sem cerimônia, com “Home”, já estabelecendo um tom sombrio e quase apocalíptico. A sensação era de que o público estava sendo imediatamente puxado para dentro do universo particular do PiL, onde conforto nunca foi uma opção.
Na sequência, “Know Now” reforçou a ponte entre passado e presente, evidenciando que o Public Image Ltd não vive apenas de legado, mas segue produzindo material relevante e instigante mesmo após tantas décadas de carreira.
O repertório transitou com naturalidade entre clássicos e momentos mais experimentais. “Corporate” surgiu como uma pancada política direta, enquanto “World Destruction” trouxe uma energia híbrida entre rock e eletrônico, lembrando o quanto a banda sempre esteve à frente de seu tempo.
Canções como “This Is Not a Love Song”, “Public Image” e, principalmente, “Rise” foram recebidas em coro, transformando o show em uma experiência coletiva intensa. Em “Rise”, o ambiente atingiu seu ápice emocional, em um daqueles momentos raros em que banda e público se encontram no mesmo pulso.
Diferente de muitas bandas contemporâneas, o Public Image Ltd não construiu um apelo voltado às novas gerações de forma massiva. O público presente era majoritariamente formado por fãs que acompanham essa história há décadas, pessoas que aguardaram anos por esse reencontro.
E talvez por isso o clima fosse tão particular. Não havia apenas empolgação, mas uma sensação clara de reconhecimento coletivo, como se todos ali soubessem que estavam participando de um momento único, carregado de memória, significado e pertencimento.
O show do Public Image Ltd no Cine Joia não foi apenas um retorno aguardado, mas uma reafirmação.
Mesmo cercado de controvérsias, John Lydon segue sendo uma figura impossível de ignorar. E, ao lado de Lu Edmonds e companhia, prova que o PiL continua relevante não por nostalgia, mas por insistir em ser desconfortável.
No fim, o que ficou foi a sensação de que aquela noite não foi apenas um show, mas um manifesto. Um lembrete de que a música ainda pode ser estranha, política, dançante e caótica ao mesmo tempo.
E que, felizmente, o Public Image Ltd continua exatamente assim.







