Os Paralamas do Sucesso no Espaço Unimed: 40 anos de hits, nostalgia & paixão
Texto: Simone Barbosa
Fotos: Flavio Santiago
Na noite de 24 de outubro de 2025, o Espaço Unimed, em São Paulo, se transformou em uma imensa máquina do tempo movida por guitarras, metais e memórias. Era o último show da turnê de 40 anos dos Paralamas do Sucesso — uma verdadeira celebração da música brasileira e da trajetória de uma das bandas mais queridas do país. O público, que lotou a casa com pessoas de todas as idades, assistiu a uma apresentação que foi muito mais do que um simples show: foi um reencontro com a própria história de quem cresceu, se apaixonou, sofreu e viveu ao som das canções de Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone.
Desde o início, a energia era algo palpável. Os primeiros acordes de “Vital e Sua Moto” fizeram o público explodir, e logo ficou claro que ninguém estava ali para assistir sentado. Era uma noite de celebração coletiva. “Cinema Mudo” e “Bora-Bora” vieram na sequência, e o Espaço Unimed virou um grande coral. Herbert, com sua presença carismática e voz firme, conduzia tudo com naturalidade, enquanto Barone e Bi mantinham a base sólida e pulsante que sempre deu identidade à banda.
O repertório, que parecia um verdadeiro caminhão de hits, não deixava espaço para pausas emocionais — e mesmo assim, cada música trazia um tipo diferente de emoção. “Pólvora” e “Ska” mostraram o vigor dos Paralamas, com seus arranjos cheios de balanço e metais que incendiaram o público. Quando chegou a vez de “Lourinha Bombril”, versão da banda argentina Los Pericos, e “Trac-Trac”, de Fito Páez, o show ganhou um clima latino que sempre fez parte da estética do grupo — aquela mistura entre rock, reggae e pop que só eles souberam traduzir tão bem para o idioma brasileiro.
Na sequência, o clima ficou mais reflexivo com músicas como “O Calibre” e “Selvagem/Polícia”, canções que dialogam com o tempo, mas continuam atuais, falando de desigualdade, de resistência e da busca por justiça. A plateia, madura e atenta, respondia com respeito e entusiasmo, como quem reconhece o peso das palavras. “Mensagem de Amor” e “Seguindo Estrelas” trouxeram o lado mais romântico e poético do trio, e o público acompanhava em coro, com olhos marejados. Era impossível não se emocionar.
O meio do show foi uma sequência de arrepiar: “Uns Dias”, “Romance Ideal” e “Ela Disse Adeus” fizeram o Espaço Unimed cantar em uníssono, lembrando que o amor e a despedida sempre foram temas recorrentes e universais na obra dos Paralamas. “La Bella Luna” e “Cuide Bem do Seu Amor” continuaram nessa toada de sentimento, preparando o terreno para “Tendo a Lua” — um dos pontos altos da noite. Quando Herbert soltou os versos “Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho”, foi impossível não sentir um arrepio coletivo percorrendo a multidão.
Em “Aonde Quer Que Eu Vá” e “Lanterna dos Afogados”, o público já não era mais plateia: era parte integrante do espetáculo. As vozes se misturavam e criavam um mar de emoção. “Quase Um Segundo” e “O Amor Não Sabe Esperar” reforçaram essa sensação de que as músicas dos Paralamas fazem parte da vida de todos — trilhas de romances, de saudades, de reencontros. “Será Que Vai Chover?” e “Assaltaram a Gramática” mostraram que a banda também sabe brincar com a linguagem, com ironia e leveza, antes de mergulhar novamente na emoção com “Gostava Tanto de Você” e “Você”, homenagens sinceras a Tim Maia.
O clima de festa seguiu com “O Beco” e “A Novidade”, parceria com Gilberto Gil que sempre rende um dos momentos mais bonitos do show, relembrando o compromisso social e a esperança que permeiam as letras dos Paralamas. Em “Melô do Marinheiro / Marujo Dub”, o grupo mostrou que ainda domina o groove e a irreverência, antes de partir para o hino “Alagados”, que fez o público vibrar como se estivesse em um estádio.
Daí em diante, foi uma sucessão de clássicos que dispensam apresentações: “Uma Brasileira”, “Óculos” e o bis apoteótico com “Sossego” (outra homenagem a Tim Maia), “Perplexo”, “Caleidoscópio”, “Meu Erro”, “Que País É Esse?” (cover da Legião Urbana) e, para fechar com energia punk, “Should I Stay or Should I Go”, do The Clash. Era a banda reafirmando suas raízes e mostrando que o rock nacional, quando bem feito, é universal.
Mais do que um show, o que se viu foi uma celebração da cultura brasileira e de uma trajetória construída com integridade e afeto. Herbert Vianna, sempre sereno e generoso no palco, agradeceu o público e os companheiros de estrada, lembrando o quanto essa caminhada foi feita de superação e amor à música. Barone e Bi, firmes e afinados, mostraram porque formam um dos trios mais coesos e respeitados do rock nacional.
Ao final da noite, era impossível não se emocionar. Os Paralamas do Sucesso representam mais do que uma banda de rock: são parte da história emocional do Brasil. Suas canções estão nas rádios, nas festas, nas lembranças e nos corações de quem viveu os últimos 40 anos. Ver a banda ainda em forma, tocando com paixão e entrega, é testemunhar a força da música como elo entre gerações. O show no Espaço Unimed foi a prova definitiva de que algumas canções não envelhecem — elas apenas mudam de endereço e passam a morar dentro da gente.
SETLIST
Vital e sua moto
Cinema mudo
Bora-Bora
Pólvora
Ska
Lourinha bombril (Los Pericos cover)
Trac-Trac (Fito Páez cover)
O calibre
Selvagem / Polícia
Mensagem de amor
Seguindo estrelas
Uns dias
Romance ideal
Ela disse adeus
La bella luna
Cuide bem do seu amor
Tendo a lua
Aonde quer que eu vá
Lanterna dos afogados
Quase um segundo
O amor não sabe esperar
Será que vai chover? / Assaltaram a gramática
Gostava tanto de você / Você (Tim Maia cover)
O beco
A novidade (Gilberto Gil cover)
Melô do marinheiro / Marujo dub
Alagados
Uma brasileira
Óculos
Encore:
Sossego (Tim Maia cover)
Perplexo
aleidoscópio
Meu erro
Que país é esse? (Legião Urbana cover)
Should I Stay or Should I Go (The Clash cover)






