Patoramas / AutoFu lota Cine Jóia em noite de celebração e sold out
Texto: Simone Barbosa
Fotos: Flavio Santiago
O encontro entre Autoramas e Pato Fu no Cine Joia, em São Paulo, foi daqueles eventos que já nascem com cara de clássico. Com ingressos esgotados e clima de celebração desde a fila na porta, a noite marcou duas datas simbólicas para o rock nacional. Os Autoramas comemoraram o aniversário de seu álbum de estreia Stress, Depressão e Síndrome do Pânico, enquanto o Pato Fu celebrou os 30 anos de Gol de Quem?. A junção carinhosamente apelidada pelo público de AutoFu ou Patoramas funcionou como uma engrenagem bem azeitada, unindo gerações, estilos e histórias complementares.
Os Autoramas subiram ao palco com o discurso claro de quem sabe exatamente o peso de seu primeiro disco. O setlist foi direto, cru e sem firulas, como pede o espírito do álbum celebrado. “Fale Mal de Mim” abriu os trabalhos já colocando o público em estado de atenção máxima, clássicos como “Autodestruição” e “Carinha Triste”,também estiveram presentes e reforçaram o lado mais punk e confessional da banda.
A sequência de músicas manteve um ritmo constante, trazendo o flerte com o garage rock internacional e “Paciência” e “Abstrai” funcionando como pontos de respiro sem perder intensidade. Faixas como “Você Sabe” foram recebidas com entusiasmo, cantadas em coro por uma plateia que claramente conhece cada verso.
O encerramento com “Catchy Chorus” com direito a banda indo pra galera sintetizou bem a proposta da banda naquela noite: músicas diretas, refrões marcantes e uma entrega honesta que reafirma a importância do disco de estreia até hoje e do Autoramas como instituição da musica alternativa brasileira.

Na sequência, o Pato Fu assumiu o palco com um setlist mais extenso e variado, refletindo tanto a celebração de Gol de Quem? quanto a amplitude de sua carreira. A abertura com “And Now” estabeleceu um clima quase teatral, logo quebrado pela irreverência de “Mamãe Ama é o Meu Revólver” e “Vida Imbecil”, que colocaram o público em movimento. “Sobre o Tempo” trouxe um momento mais contemplativo antes da execução de “Gol de Quem?”, ponto alto da noite e um dos momentos mais cantados do show.
As homenagens aos Mutantes com “Qualquer Bobagem” e mais tarde “Ando Meio Desligado” reforçaram as raízes psicodélicas e a herança tropicalista que sempre permeou o som da banda.
A primeira parte do set seguiu alternando hits e surpresas, passando por “Vida de Operário”, “Spoc” e chegando ao segundo bloco com “Perdendo Dentes” e “Deus”, músicas que evidenciam o lado mais experimental do Pato Fu.
A reta final trouxe uma sequência emocionalmente carregada, com “Simplicidade”, “Fique Onde Eu Possa Te Ver”, “Canção Pra Você Viver Mais” e “Antes Que Seja Tarde”, criando um clima de comunhão entre banda e público. O encerramento do set principal com “Uh, Uh, Uh, Lá, Lá, Lá, Ié, Ié!” devolveu a leveza e preparou o terreno para um bis celebrado do início ao fim. No encore, “Hoji”, “Água” e “Eu”, esta última em versão de Graforréia Xilarmônica, fecharam a noite com a sensação de missão cumprida.
O que ficou evidente ao longo do show foi que a união entre Autoramas e Pato Fu não foi apenas uma soma de repertórios, mas um diálogo entre propostas diferentes que se complementam. De um lado, a urgência e o espírito garage do rock carioca. Do outro, a inventividade e o humor sofisticado do rock mineiro. O público respondeu à altura, transformando o Cine Joia em um espaço de celebração coletiva, onde nostalgia e frescor caminharam lado a lado.
No fim, a noite confirmou que o AutoFu ou Patoramas deu mais do que certo. Foi uma celebração do passado que soou absolutamente presente, reafirmando a relevância de duas bandas que continuam dialogando com novas gerações sem abrir mão de sua identidade. Um show para entrar na memória afetiva de quem esteve lá e um lembrete poderoso da vitalidade do rock brasileiro independente.






