ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com

Pentagram ::: 13/08/26 ::: Fabrique Club / SP
Postado em 18 de agosto de 2026 @ 13:52

Pentagram transforma despedida em ritual catártico no Fabrique, em São Paulo

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Algumas bandas constroem sua história em grandes palcos, discos milionários e carreiras cuidadosamente planejadas. Outras sobrevivem ao caos. O Pentagram definitivamente pertence ao segundo grupo. Em mais de cinco décadas de existência, a banda norte-americana atravessou mudanças de formação, separações, retornos improváveis e todos os tipos de turbulência para se transformar em um dos nomes fundamentais do doom metal. Agora, com uma turnê anunciada como sua derradeira jornada pelos palcos, o grupo passou pelo Fabrique, em São Paulo, para uma noite que teve clima de celebração, despedida e, principalmente, catarse.

Formado em 1971 na Virgínia por Bobby Liebling e Geof O’Keefe, o Pentagram começou a produzir sua mistura de hard rock pesado, riffs arrastados e atmosfera sombria quando aquilo que posteriormente seria chamado de doom metal ainda nem possuía um nome definido. Ao lado de nomes como Saint Vitus e Trouble, tornou-se uma das bandas fundamentais para o desenvolvimento do gênero. Curiosamente, apesar de existir desde o começo dos anos 70 e acumular uma grande quantidade de demos e gravações, seu primeiro álbum completo só apareceria em 1985, originalmente autointitulado e posteriormente rebatizado como Relentless.

No centro dessa história sempre esteve Bobby Liebling. Único integrante constante durante as diferentes encarnações do Pentagram, o vocalista talvez seja uma das figuras mais improváveis a atravessar mais de meio século de heavy metal. Sua trajetória pessoal foi marcada por excessos, dependência química, prisões, períodos de afastamento e inúmeras situações que quase encerraram definitivamente sua carreira e a própria existência da banda. Parte dessa história foi registrada no documentário Last Days Here, lançado na década passada e que ajudou uma nova geração a descobrir tanto Liebling quanto o Pentagram.

Por isso, ver Bobby Liebling novamente em um palco brasileiro, ainda mais dentro do contexto de uma turnê de despedida, carregava um peso diferente. Não era simplesmente mais uma apresentação de uma veterana banda de doom metal. Havia uma sensação de testemunhar os últimos capítulos de uma história que, em vários momentos, parecia que nem chegaria tão longe.

Antes da atração principal, coube à Fuzzly preparar o terreno no Fabrique. A banda abriu os trabalhos com maestria e mostrou ser uma escolha certeira para uma noite dedicada aos sons pesados, psicodélicos e carregados de fuzz. Mais do que cumprir protocolo enquanto o público aguardava o Pentagram, o grupo aproveitou seu espaço e criou a atmosfera necessária para o que viria depois.

Quando finalmente chegou a hora do Pentagram, não houve muita cerimônia. A banda entrou disposta a transformar o Fabrique em uma pequena catedral do doom. Live Again abriu a apresentação quase como uma declaração involuntária sobre a própria trajetória de Liebling. Poucos títulos poderiam funcionar tão bem naquele momento. Depois de tudo que cercou sua história, vê-lo novamente ali, comandando o palco, fazia a música ganhar um significado ainda maior.

Logo em seguida veio Starlady, mantendo o peso e colocando em evidência uma característica essencial do Pentagram: riffs que parecem simples na superfície, mas carregam toneladas de sujeira, blues e ameaça. The Ghoul aprofundou o mergulho nos primeiros anos do grupo, seguida por I Spoke to Death, com aquele andamento pesado e atmosfera soturna que ajudaram a estabelecer a identidade da banda muito antes de doom metal virar uma categoria nas prateleiras das lojas.

Bobby, naturalmente, concentrava boa parte dos olhares. Sua presença continua peculiar, teatral e imprevisível. Ele se movimenta, gesticula, encara o público e interpreta as letras como alguém que viveu boa parte daquilo que canta. Não existe a preocupação em parecer perfeito ou reproduzir a imagem tradicional de um frontman do heavy metal. O que existe é personalidade, e isso sempre foi algo que o Pentagram teve de sobra.

Sinister manteve o Fabrique mergulhado naquela atmosfera pesada antes de When the Screams Come surgir como um dos grandes momentos da noite. É justamente quando o Pentagram revisita esse material antigo que fica evidente o quanto a banda estava à frente de seu tempo. São músicas concebidas décadas atrás, mas que poderiam tranquilamente surgir no repertório de inúmeras bandas atuais de doom, stoner ou heavy psych.

Outro momento inevitável veio com Sign of the Wolf (Pentagram). O riff arrastado tomou conta da casa enquanto a banda mostrou que não precisava recorrer a velocidade ou virtuosismo exagerado para produzir impacto. O Pentagram sempre trabalhou melhor com peso, repetição, clima e tensão, elementos que ao vivo ganham uma dimensão ainda mais física.

A apresentação seguiu com Dull Pain e Review Your Choices, esta última carregando ainda mais significado quando cantada por Bobby Liebling. Em uma carreira construída sobre escolhas certas, erradas e algumas aparentemente irreversíveis, ouvir o vocalista repetir essas palavras em uma turnê de despedida tornava impossível separar completamente música e biografia.

O repertório também abriu espaço para fases mais recentes. Thundercrest e Walk the Sociopath mostraram que o Pentagram não precisava viver exclusivamente de nostalgia. Mesmo diante de uma plateia obviamente interessada nos clássicos, o material novo conseguiu preservar os elementos que tornaram a banda reconhecível desde os anos 70: riffs enormes, andamento pesado, guitarras impregnadas de fuzz e a voz imediatamente identificável de Liebling.

Mas uma despedida do Pentagram não poderia terminar sem voltar às raízes.

Depois de uma breve saída, a banda retornou para o bis e entregou Forever My Queen. Foi provavelmente o momento em que a sensação de despedida ficou mais evidente. Uma das músicas definitivas da história do Pentagram, composta ainda nos primórdios do grupo, atravessou décadas para chegar até aquele pequeno palco paulistano sendo cantada por uma plateia que conhecia cada detalhe.

O encerramento veio com 20 Buck Spin, outra peça essencial da fase primordial da banda. Era uma maneira perfeita de fechar o círculo. Depois de mais de cinquenta anos, o Pentagram terminava sua passagem paulistana justamente recorrendo ao material que ajudou a construir sua reputação quando a banda ainda era praticamente um segredo do underground norte-americano.

O show no Fabrique teve, portanto, algo que ultrapassou a simples nostalgia. Havia peso histórico, mas também havia uma banda funcionando diante do público e mostrando por que aquelas músicas sobreviveram tanto tempo. O Pentagram nunca teve uma trajetória convencional, e talvez exatamente por isso uma despedida convencional também não combinasse com sua história.

Se esta realmente for a última oportunidade de São Paulo assistir ao Pentagram, a banda escolheu uma maneira digna de dizer adeus. Sem grandes produções, sem sentimentalismo exagerado e sem transformar a noite em cerimônia funerária. Apenas amplificadores, fuzz, riffs monumentais e Bobby Liebling novamente diante de uma plateia.

Para um homem e uma banda que tantas vezes pareceram próximos do fim, chegar até aqui já seria uma vitória. Fazer isso proporcionando um show catártico é algo ainda maior.

O Pentagram pode estar se despedindo dos palcos, mas riffs como os de Forever My Queen, When the Screams Come, Sign of the Wolf e 20 Buck Spin já garantiram há muito tempo que sua história continuará ecoando muito depois que o último amplificador for desligado.

 
ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025