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Planet Hemp ::: 15/11/25 ::: Allianz Parque
Postado em 18 de novembro de 2025 @ 02:26

Texto: Flavio Santiago

Fotos: Bmaisca

Planet Hemp no Allianz Parque: o gurufim derradeiro em uma noite histórica para 40 mil vozes

São Paulo testemunhou, no Allianz Parque, um dos shows mais marcantes do ano e — por que não? — de toda a trajetória do Planet Hemp. Em meio à turnê do “gurufim derradeiro”, que marca a despedida definitiva da banda, o grupo liderado por Marcelo D2 e BNegão entregou mais que um espetáculo: ofereceu ao público um rito coletivo, uma celebração da contracultura e um adeus carregado de simbolismos.

Com mais de 40 mil pessoas lotando o estádio, a sensação era de que cada música, cada frase, cada participação especial compunha um último capítulo escrito ao vivo, diante de uma plateia que jamais quis que esse fim chegasse.

BaianaSystem: a abertura perfeita para um ritual de despedida

A noite começou em altíssimo nível com o BaianaSystem, escolhido a dedo para abrir o evento. Encaixados com precisão cirúrgica na narrativa da despedida, os baianos deixaram isso claro até no material exibido antes do show: um VT da própria banda afirmava com todas as letras que “o Baiana não existiria sem o Planet Hemp”.

Logo nos primeiros instantes, algo raro aconteceu. Marcelo D2 surgiu das laterais do palco e, sem intermediários, chamou pessoalmente o BaianaSystem para o público  um gesto de afeto, reconhecimento e passagem de bastão. Na música de abertura, uma fusão energética de “Reza Forte”, “Calundu” e “A Vida é Curta pra Viver Depois”, o palco já estava tomado: BNegão se juntou ao grupo, enquanto D2 pulava empolgado, dando um tom quase tribal ao início da noite.

Dizer que o som do BaianaSystem foge de rótulos é um clichê inevitável, mas absolutamente verdadeiro. Samba, rock, reggae, rap, ritmos afrolatinos, dub, pagode baiano, guitarradas  tudo aparece misturado em um caldeirão que não apenas funciona, mas conquista de imediato. Sob o comando hipnótico de Russo Passapusso, o Baiana entregou um espetáculo que parecia um portal para o transe, uma avalanche sonora impossível de atravessar indiferente.

Brilharam a sequência inicial incendiária, o desfile de referências musicais em “Sulamericano”  com a inesperada e elegante citação a “Bésame Mucho” , o impacto de “Lucro (Descomprimido)”, e a explosão de energia em “Ballah ih Fogoh”, com participação fulminante de Vandal. Foi a abertura perfeita: potente, politizada, ritualística e emocional.

Planet Hemp: despedida com força de reencontro

Quando o Planet Hemp finalmente subiu ao palco, o Allianz já estava em estado de combustão. “Dig Dig Dig (Hempa)” abriu os trabalhos com intensidade máxima, e dali em diante a banda parecia determinada a entregar um show-cataclisma — daqueles que falam mais alto do que a própria biografia.

A combinação “Ex-Quadrilha da Fumaça / Fazendo a Cabeça” veio como um soco nostálgico, seguida pela avalanche sonora de “Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga”, “Distopia”, “Taca Fogo” (com Luiza Machado nos backing vocals) e uma sequência que fez o estádio tremer.

Um dos momentos mais emocionantes veio cedo: em “Mary Jane / Phunky Buddha”, a voz original de Skunk ecoou pelas caixas de som. O Allianz silenciou por alguns segundos — uma pausa reverente — antes de explodir em aplausos. Era a história viva passando diante dos olhos.

O meio do show parecia uma linha do tempo afetiva:
“Planet Hemp”, “Legalize Já”, “Não Compre, Plante!”, “Jardineiro”, “Queimando Tudo”, “Onda Forte” — o que se viu ali foi um estádio inteiro atravessado por lembranças de adolescência, militância, amizade, sobrevivência. Cada música parecia um capítulo da formação cultural de quem cresceu ouvindo a banda.

As participações especiais elevaram a noite ao patamar de evento memorável.

Seu Jorge trouxe brilho e alma, dividindo “Nunca Tenha Medo” ao lado de Emicida, em um encontro eletrizante entre gerações do rap e da música negra brasileira. Depois, Seu Jorge voltou para “Biruta”, soprando flauta com elegância ímpar, e ainda para a sequência “Cadê o Isqueiro / Quem Tem Seda / Pilotando o Bonde da Excursão”, deixando o público extasiado.

Emicida, por sua vez, protagonizou um dos momentos mais emocionantes da noite com “AmarElo”, cantada ao lado do Planet e de Seu Jorge — um abraço coletivo entre resistência, afeto e ancestralidade.

Pitty incendiou o Allianz ao participar das versões “reativadas” de “Admirável Chip Novo” e “Teto de Vidro”, recriando as faixas com uma energia punk e um peso orgânico que surpreendeu até quem já esperava algo forte.

E então veio ele: Black Alien.
Quando o ex-Planet subiu ao palco para “Contexto”, o Allianz Parque virou um mar de emoção. Parte do público chorou, parte gritou, todos cantaram. Em “Queimando Tudo” e depois no retorno para o encore com “Deisdazseis”, a sensação era de reencontro espiritual — como se um ciclo longamente aberto finalmente se fechasse ali, diante de 40 mil testemunhas.

O show ainda guardava espaço para o caos necessário: João Gordo surgiu para transformar tudo em pancadaria sonora com “Crise Geral”, do Ratos de Porão, e “Mantenha o Respeito”, lembrando que hardcore não é só música — é atitude, é vida.

O Planet ainda visitou as conexões históricas com a Nação Zumbi em “Samba Makossa / Monólogo ao Pé do Ouvido / Mateus Enter”, e despejou força bruta em “Adoled (The Ocean)”, “Gorilla Grip”, “O Bicho Tá Pegando”, “Mão na Cabeça”, “Procedência C.D.”, “100% Hardcore / Deixa a Gira Girá”, “Zerovinteum”, “Hip Hop Rio” e “A Culpa é de Quem?” — um mosaico de 30 anos de luta, crítica social, contestação e festa.

O encerramento, com “Nos Porcos Não Crescerão Asas”, do Digitaldubs, foi uma despedida ritualística, quase xamânica. Uma forma de fechar portas e janelas, mas mantendo a chama acesa.

No fim, o gurufim derradeiro foi menos um enterro e mais uma celebração crua, barulhenta e emocional do que o Planet Hemp representa: ousadia, resistência, amizade, fúria criativa, humor, história.

Se o Planet realmente se despede dos palcos, deixa para trás um legado inapagável — não apenas como banda, mas como movimento cultural e político.

Para os 40 mil presentes no Allianz Parque, o que ficou foi a certeza: eles presenciaram algo único. Um capítulo final que, paradoxalmente, manterá o Planet Hemp vivo para sempre.

Dig Dig Dig (Hempa)
Ex-quadrilha da fumaça / Fazendo a cabeça
Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga
Distopia
Taca fogo (with Luiza Machado)
Mary Jane / Phunky Buddha (featuring Skunk’s original vocal track for his verse on “Phunky Buddha”)
Planet Hemp
Legalize já
Não compre, plante!
Jardineiro
Queimando tudo
Onda forte
Nunca tenha medo(with Seu Jorge) (also with Emicida)
AmarElo (Emicida cover) (with Emicida) (also with Seu Jorge)
Biruta(with Seu Jorge) (Seu Jorge on flute)
Cadê o isqueiro? / Quem tem seda? / Pilotando o bonde da excursão (with Seu Jorge)
Puxa fumo
Adoled (The Ocean)
Salve, Kalunga
Gorilla Grip
O bicho tá pegando
Mão na cabeça
Não vamos desistir
Stab
Procedência C.D.
Admirável chip novo (Pitty cover) (with Pitty) (“Reativado” version)
Teto de vidro (Pitty cover) (with Pitty) (“Reativado” version)
100% Hardcore / Deixa a gira girá
Zerovinteum
Hip Hop Rio
Samba makossa / Monólogo ao pé do ouvido (Nação Zumbi cover)
Mateus Enter (Nação Zumbi song)
A culpa é de quem?
Contexto (with Black Alien) (with band introductions)
Queimando tudo (with Black Alien)

Encore:
Deisdazseis (with Black Alien)
Crise geral(Ratos de Porão cover) (with João Gordo)
Mantenha o respeito (with João Gordo) (also with Black Alien)

 
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