Texto: Simone Barbosa
Fotos: Flavio Santiago
Depois de seis anos longe do país, o Primal Scream voltou a São Paulo como se nunca tivesse ido embora. Numa terça-feira chuvosa de 11 de novembro, a Audio lotada viu Bobby Gillespie e companhia transformarem um show “de turnê de disco novo” numa espécie de missa laica sobre quatro décadas de reinvenção sonora – amparados por Come Ahead, primeiro álbum de inéditas em oito anos, lançado em 2024.
A abertura com “Don’t Fight It, Feel It” foi um recado: nada de aquecimento tímido. O velho hino Screamadelica entrou logo de cara como batismo rave, com a pista já comprimida e braços erguidos, trazendo à tona a fusão de rock e acid house que fez o nome da banda nos anos 90. Quando emenda em “Love Insurrection”, o recorte fica claro: o show não é apenas viagem nostálgica, é a banda usando o clássico como porta de entrada para o universo de Come Ahead.
O miolo do set poderia ser lido como manifesto do novo disco. “Jailbird” surge mais cedo do que o habitual, trazendo o lado stones da banda para perto do presente, mas logo a noite mergulha na sequência de inéditas: “Ready to Go Home”, “Deep Dark Waters”, “Medication”, “Innocent Money”, “Heal Yourself”, “Love Ain’t Enough”, “The Centre Cannot Hold” – sete faixas do álbum novo na mesma tacada, um luxo que nem todo veterano tem coragem de arriscar.
Ao vivo, essas músicas soam menos “nostalgia em estúdio” e mais trilha para um mundo à beira do colapso: baixo gordo, batidas que flertam com funk e soul, guitarras afiadas e aquele clima de paranoia política que o Primal Scream cultiva desde XTRMNTR. “Ready to Go Home” cresce sobre um groove lento e cinematográfico; “Deep Dark Waters” é puro clima denso, de fumaça e luz vermelha; “Medication”, ressuscitada de Vanishing Point, encaixa como elo perfeito entre os anos 90 dub-psicodélicos e o presente.
O momento político declarado da noite vem quando “Innocent Money” é dedicada por Bobby a Lula, arrancando um coro imediato da plateia. De um lado, o velho vocalista magérrimo de aparência frágil; do outro, um público que entende que, por trás do refrão grudado em soul, a banda segue falando de desigualdade, grana suja e gente sendo esmagada por um sistema que não funciona. É o Primal Scream lembrando que nunca foi só “música de festa”, mesmo quando faz a pista dançar.
No meio desse bloco de novidades, há um aceno emocional ao passado: “I’m Losing More Than I’ll Ever Have”, a canção que deu origem, via remix, a “Loaded”. Ao vivo, ela funciona quase como flashback para iniciados – aquele momento em que as pessoas se olham e lembram da história toda: a criação de Screamadelica, a virada da banda do indie rock para o universo das raves, o casamento definitivo entre guitarras e pista de dança.
Daí em diante, o show vira catarse controlada. “Loaded” explode com a casa inteira berrando “we wanna be free”, enquanto Bobby rege a plateia com o microfone como se estivesse comandando um culto pós-moderno. Na sequência, “Swastika Eyes” traz a faceta mais agressiva: um ataque eletro-industrial, luzes cortando a névoa, um mantra anti-imperialista que continua fazendo sentido demais em 2025. “Movin’ on Up” vem como abraço coletivo, e “Country Girl” transforma a Audio num boteco gigante cantando refrão de Riot City Blues com copo na mão.
O primeiro encore entra pela via do coração. “Damaged” desacelera o tempo, devolve a banda ao clima gospel-psicodélico de Screamadelica e coloca couples e desconhecidos lado a lado num coro quase emocionado. Na sequência, “Come Together” cumpre seu destino: vira jam de comunhão total, todo mundo cantando “I’m free, you’re free” como se estivesse dentro de um clube em Manchester em 1991, e não num galpão da Barra Funda em 2025.
Mas o Primal Scream não sabe ir embora quieto. O segundo retorno sela a noite em modo rock de botina suja: “Rocks” põe a casa para pular como se fosse último sábado da vida, e o cover de “No Fun”, dos Stooges, é aquele recado clássico de banda que aprendeu a fazer show olhando para Detroit e não só para Londres. É uma despedida ruidosa, suada, que deixa claro que, mesmo depois de tanta experimentação eletrônica, o grupo ainda sabe descer para o porão do rock mais simples e direto.
No palco, Bobby Gillespie alterna pose de xamã pós-punk com momentos quase frágeis, mas canta melhor do que muita gente esperava e segura a atenção por duas horas sem precisar de grandes cenografias – luz certa, banda afiada, repertório monstruoso. A cozinha, com Darrin Mooney e Simone Butler, segura o groove com precisão cirúrgica, enquanto Andrew Innes usa a guitarra como cola entre as fases: ora shoegaze, ora funk, ora puro rock de bar.
No fim, a sensação é de que São Paulo não viu apenas o “lançamento ao vivo” de Come Ahead, mas um acerto de contas com a própria trajetória da banda: dos dias químicos de Screamadelica ao peso paranoico de XTRMNTR, da poeira de “Country Girl” à elegância soul das canções novas. Mais do que matar a saudade de seis anos, o Primal Scream mostrou que ainda tem algo a dizer – politicamente, musicalmente, emocionalmente. Saímos da Audio com a impressão de ter visto um grupo que envelheceu, sim, mas que aprendeu a transformar esse tempo em combustível, não em museu. E a única reclamação possível, nesse caso, é a de sempre: tomara que não demorem mais seis anos para voltar.
SETLIST
Don’t Fight It, Feel It
Love Insurrection
Jailbird
Play Video
Ready to Go Home
Deep Dark Waters
Medication
Innocent Money (Dedicated to President Lula)
Heal Yourself
I’m Losing More Than I’ll Ever Have
Love Ain’t Enough
The Centre Cannot Hold
Loaded
Swastika Eyes
Movin’ on Up
Country Girl
Encore:
Damaged
Come Together
Rocks
Encore 2:
No Fun (The Stooges cover)
GALERIA DE FOTOS :




































