Redd Kross faz estreia histórica no Brasil em noite de celebração ao rock alternativo no Cine Joia
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Há bandas que vendem milhões de discos e há bandas que mudam a história da música sem necessariamente ocupar esse espaço comercial. O Redd Kross pertence à segunda categoria. Frequentemente descritos como “a banda favorita da sua banda favorita”, os irmãos Jeff e Steven McDonald construíram uma trajetória única desde o final dos anos 1970, misturando punk, hardcore, power pop, glam rock, Beatles, cultura pop, filmes B e muito bom humor. Essa combinação improvável influenciou gerações de músicos e ajudou a pavimentar o caminho para o rock alternativo que explodiria nos anos 1990.
A importância da banda pode ser medida não apenas pela qualidade de discos como Neurotica, Third Eye e Phaseshifter, mas também pela admiração de nomes como Nirvana, Sonic Youth e Melvins. Aliás, a conexão com o Melvins segue viva até hoje: o baixista Steven McDonald e o lendário baterista Dale Crover também integram a formação da banda de Buzz Osborne, reforçando o peso histórico que acompanha o grupo.
Depois de 45 anos de carreira, finalmente chegou a vez do público brasileiro testemunhar essa história de perto. A aguardada estreia aconteceu no Cine Joia, em São Paulo, em uma noite que também celebrou os 18 anos do In-Edit Brasil e os 40 anos da tradicional London Calling Discos, reunindo diferentes gerações de fãs do rock alternativo em um ambiente que respirava celebração.
Antes da atração principal, a noite começou com a Twinpines. Representando muito bem a cena nacional, a banda apresentou um repertório que passeia entre o garage rock, indie e psicodelia contemporânea, conquistando o público logo nos primeiros minutos graças à energia de palco e às melodias marcantes.
Na sequência, os panamenhos do AlphaWhores confirmaram por que vêm chamando tanta atenção na cena latino-americana.
O duo formado por Massiel Pinzón e Juan Carlos “Poti” Aizprúa entregou uma apresentação intensa, carregada de riffs pesados, muito fuzz, stoner rock e uma presença de palco hipnotizante.
Para muitos presentes, foi o primeiro contato com a banda, que saiu bastante fortalecida após um show pesado, envolvente e cheio de personalidade.
Quando as luzes se apagaram para a entrada do Redd Kross, ficou evidente que o momento era especial. O público recebeu a banda como velhos amigos que demoraram décadas para finalmente visitar o país. Jeff McDonald, sempre carismático, comandou uma apresentação descontraída, alternando comentários bem-humorados com interpretações cheias de energia, enquanto Steven McDonald e Dale Crover formavam uma cozinha absolutamente impecável.
O repertório foi um verdadeiro passeio pela carreira da banda. Logo de cara, “Huge Wonder” e “Peach Kelli Pop” mostraram que o grupo continua extremamente afiado, alternando guitarras pesadas e melodias irresistíveis. “Stay Away From Downtown”, “Stunt Queen” e “Uglier” mantiveram o alto nível antes da delicada releitura de “I’ll Blow You a Kiss in the Wind”, composição de Tommy Boyce e Bobby Hart.
As referências sempre fizeram parte do DNA do Redd Kross, e isso ficou evidente nas versões de “Crazy World”, do Frightwig, e principalmente em “It Won’t Be Long”, dos Beatles, recebida com entusiasmo pelo público. Entre clássicos próprios como “Candy Coloured Catastrophe”, “Annie’s Gone”, “Emanuelle Insane” e a explosiva “Neurotica”, que contou com uma introdução de bateria impressionante de Dale Crover, a banda demonstrava uma naturalidade impressionante em transitar entre peso, melodias ensolaradas e puro espírito punk.
Um dos pontos altos veio com “Jimmy’s Fantasy”, uma das músicas mais celebradas da noite, seguida pela curiosa combinação entre “Linda Blair” e trechos de “I Want You (She’s So Heavy)”, dos Beatles, mostrando mais uma vez como o grupo sempre soube transformar suas influências em algo absolutamente próprio.
Após deixar o palco sob muitos aplausos, o Redd Kross retornou para um bis generoso. Vieram “Annette’s Got the Hits”, “Cover Band”, “Clorox Girls”, “I Hate My School”, “S & M Party” e “Standing in Front of Poseur”, resgatando toda a irreverência dos primeiros anos da banda.
O encerramento não poderia ser mais divertido. Primeiro, uma vibrante versão de “Crazy Horses”, clássico dos Osmonds, seguida por uma explosiva interpretação de “Deuce”, do Kiss, que colocou um ponto final perfeito em uma apresentação histórica.
Mais do que simplesmente cumprir uma dívida de décadas com os fãs brasileiros, o Redd Kross mostrou por que continua sendo uma referência para tantas bandas. A química entre os irmãos McDonald permanece intacta, Dale Crover segue sendo um dos bateristas mais impressionantes do rock e o repertório envelheceu de maneira admirável.
A sensação ao final da noite era de que o Brasil finalmente recebeu uma das peças que faltavam para completar o quebra-cabeça da história do rock alternativo. Quarenta e cinco anos depois do início dessa jornada na Califórnia, o Redd Kross provou que continua tão relevante, divertido e imprevisível quanto sempre foi.
Setlist
- Huge Wonder
- Peach Kelli Pop
- Stay Away From Downtown
- Stunt Queen
- Uglier
- I’ll Blow You a Kiss in the Wind (Tommy Boyce & Bobby Hart)
- Crazy World (Frightwig)
- Lady in the Front Row
- Mess Around
- I’ll Take Your Word for It
- Candy Coloured Catastrophe
- Annie’s Gone
- Emanuelle Insane
- It Won’t Be Long (The Beatles)
- Neurotica
- Switchblade Sister
- Jimmy’s Fantasy
- Linda Blair / I Want You (She’s So Heavy)
Encore
- Annette’s Got the Hits
- Cover Band
- Clorox Girls
- I Hate My School
- S & M Party
- Standing in Front of Poseur
- Crazy Horses (The Osmonds)
- Deuce (KISS)






