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Refused ::: 31/10/25 ::: Terra SP
Postado em 04 de novembro de 2025 @ 13:46

Texto e fotos: Flavio Santiago

Refused em São Paulo: o adeus incendiário de uma banda que redefiniu o punk

Há bandas que passam pela história como faíscas, e há aquelas que incendeiam tudo por onde passam. O Refused sempre pertenceu ao segundo grupo. Desde o início dos anos 1990, os suecos transformaram o hardcore em uma plataforma de questionamento político, social e artístico, muito além de três acordes e gritos de revolta. Liderado por Dennis Lyxzén, o grupo ergueu bandeiras contra o capitalismo, o racismo e a homofobia muito antes dessas pautas se tornarem parte da conversa mainstream. Sua música, ao mesmo tempo densa e explosiva, fundia punk, jazz, eletrônica e dissonância — e sua postura desafiava o próprio sistema da indústria musical.

Em São Paulo, o Refused fez sua primeira e última apresentação no Brasil, encerrando oficialmente uma trajetória que marcou gerações. O clima era de celebração e despedida: uma noite em que cada acorde parecia carregar a força de um manifesto.

A noite começou com a apresentação da banda Eu Serei a Hiena, retomando as atividades após um longo hiato, com uma sonoridade original e instigante o quarteto agradou aos fãs que ainda chegavam ao Terra SP .

Quando as luzes se apagaram e a introdução de “Poetry Written in Gasoline” começou a ecoar, o público já sabia que estava prestes a testemunhar algo especial. O Refused entrou em cena com energia absoluta, e Dennis Lyxzén, sempre performático e inflamado, parecia um profeta punk em transe. Ele dançava, se jogava, gritava e sorria — como quem quer espremer até a última gota de emoção daquele momento.

Na sequência vieram “The Shape of Punk to Come” e “The Refused Party Program”, reafirmando o poder do álbum que transformou o gênero em uma força intelectual e revolucionária. O público acompanhava cada verso, cada pausa, cada explosão rítmica. “Vocês esperaram muito tempo por isso, e nós também”, disse Lyxzén, enquanto o público respondia em coro.

O vocalista fez uma de suas falas políticas mais fortes da noite, defendendo a resistência do povo palestino, os direitos das pessoas trans e LGBTQIA+, e a dignidade dos imigrantes que enfrentam perseguição e exclusão no mundo todo e que se você acha que o problema são essas pessoas, talvez o problema seja você “, declarou, arrancando aplausos ensurdecedores.

A sequência de músicas trouxe um panorama completo da carreira da banda. “Malfire” e “Elektra”, dos discos mais recentes Freedom (2015) e War Music (2019), mostraram que, mesmo décadas depois, o Refused manteve a chama acesa. Lyxzén aproveitou para comentar como o capitalismo global destrói a empatia e transforma tudo em mercadoria, inclusive a arte.

“Liberation Frequency”, “Summerholidays vs. Punkroutine” e “The Deadly Rhythm” reacenderam o espírito do álbum The Shape of Punk to Come. Durante esta última, a banda inseriu um trecho de “Raining Blood”, do Slayer, transformando o momento em um cruzamento perfeito entre fúria e ironia. O público respondeu com mosh pits e gritos, em um espetáculo de caos coletivo e comunhão.

“Circle Pit” e “Burn It” mantiveram o ritmo frenético, enquanto “Economy of Death” trouxe uma das mensagens mais sombrias da noite — uma crítica direta à lógica que transforma vidas humanas em números e lucros.

Quando o riff inconfundível de “New Noise” começou, o chão tremeu. O público explodiu, e Lyxzén, com um olhar intenso, gritou o verso que sintetiza toda a essência da banda: “Can I scream?”. O grito de milhares de vozes respondeu, em uníssono, como se todo o peso da história do Refused e de seus ideais se libertasse naquele instante.

A banda ainda presenteou os fãs com “Refused Are Fucking Dead”, um título simbólico, e a monumental “Worms of the Senses / Faculties of the Skull”, que fez o público mergulhar em transe. O encerramento veio com “Tannhäuser / Derivè”, um épico experimental que alterna caos e contemplação, seguido por “Pump the Brakes” e “REV001” — uma despedida à altura da trajetória da banda.

Ao final, Dennis Lyxzén e a banda visivelmente emocionados agradeceram ao público ” Obrigado, São Paulo.”

Mais do que um show, o que aconteceu naquela noite foi um rito de passagem. O Refused encerrou sua jornada com dignidade, coerência e intensidade, lembrando a todos que o punk nunca foi apenas sobre música — é sobre ética, política e empatia.

O público saiu com lágrimas, suor e sorrisos, consciente de que tinha presenciado algo irrepetível. E se o título “Refused Are Fucking Dead” soa como uma sentença, o que se viu em São Paulo foi o contrário: a confirmação de que a chama que eles acenderam jamais se apagará.

SETLIST

Poetry Written in Gasoline
The Shape of Punk to Come
The Refused Party Program
Rather Be Dead
Malfire
Liberation Frequency
Summerholidays vs. Punkroutine
The Deadly Rhythm (with Slayer’s “Raining Blood” interlude)
Circle Pit
Burn It
Economy of Death
Refused Are Fucking Dead
Worms of the Senses/Faculties of the Skull
Elektra
New Noise
Tannhäuser / Derivè
Encore:
Pump the Brakes
REV001

 
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