Roberto Carlos transforma o Suhai Music Hall em um altar de emoções atemporais
Fotos: Bianca Amorim
Há shows que são apenas apresentações, e há shows que se tornam rituais — encontros quase espirituais entre artista e público. A passagem de Roberto Carlos pelo Suhai Music Hall pertence, sem esforço, à segunda categoria. Mesmo após décadas como o maior ícone romântico do país, o Rei segue reunindo gerações inteiras dispostas a reviver memórias, celebrar afetos e, inevitavelmente, derramar algumas lágrimas.
Logo na abertura, enquanto a banda executa um instrumental elegante, é possível sentir a expectativa flutuar pela casa. Quando Roberto finalmente surge, impecável em seu terno — clássico, sereno, luminoso — o público responde com a reverência merecida a quem moldou a trilha sonora emocional de tantas vidas.
O primeiro impacto vem com “Emoções”, e é impossível não notar: a música funciona como uma biografia coletiva. Cada verso acende lembranças, e a plateia inteira canta como se estivesse sendo devolvida a algum momento precioso. Em seguida, “Como vai você” e “Além do horizonte” mantêm o clima de nostalgia acalentadora, com todos acompanhando como um grande coral.
A transição para “Desabafo”, “Detalhes”, “Outra vez” e “Olha” reforça a força interpretativa do cantor. Mesmo com a idade avançada, Roberto continua dominando o palco com um timbre aveludado, firme e emocionalmente preciso — aquele fraseado inconfundível que nunca se perdeu. Cada pausa, cada prolongamento, cada olhar… tudo é milimetricamente pensado para atingir o coração.
Há uma virada especial quando ele entoa “Nossa Senhora”, recebida com devoção por grande parte do público. Imediatamente depois, a plateia embarca numa viagem mais divertida com “O calhambeque (Road Hog)” e “O Cadillac”, momentos em que Roberto sorri mais abertamente e interage com leveza, quase lembrando o garoto rebelde da Jovem Guarda.
Mas é com “Lady Laura” que o show atinge um de seus pontos mais sensíveis. Não importa quantas vezes essa música seja tocada: ela permanece um abraço, um acalanto universal.
O bloco com “Seu corpo / Café da manhã / Seus botões / Falando sério / Côncavo e convexo” mostra a força do repertório de Roberto nos anos 70 e 80 — músicas que nunca deixaram de soar atuais. O público, majoritariamente adulto, canta cada verso com precisão impressionante, como se fosse uma partitura natural.
“Mulher de 40” e “Cavalgada” aquecem ainda mais o clima de romance maduro que só o Rei sabe conduzir. Em seguida, acontece o momento tradicional de apresentação da banda, sempre com elegância e carinho.
A reta final é uma sequência de hits absolutos: “Esse cara sou eu”, que virou fenômeno em uma geração recente; “Amigo”, cantada como um hino de fraternidade; e “Como é grande o meu amor por você”, possivelmente a declaração de amor mais forte da música brasileira. Nessa hora, celular nenhum fica abaixado.
O encerramento chega com “Jesus Cristo”, transformando o Suhai Music Hall em um espaço de celebração, e por fim “Eu ofereço flores”, momento em que o ritual se completa: Roberto distribui rosas ao público, mantendo uma tradição que simboliza carinho, gratidão e permanência.






