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Samiam :::25/09/26 ::: Hangar 110
Postado em 07 de outubro de 2026 @ 02:20

Texto e Fotos : Flavio Santiago

Mesmo se recuperando de uma forte gripe que havia causado o cancelamento da apresentação em Goiânia, Jason Beebout subiu ao palco do Hangar 110, em São Paulo, para conduzir o Samiam por um repertório que percorreu diferentes fases de quase quatro décadas de carreira. Com ingressos esgotados, a casa recebeu um público que transformou a noite em mais um daqueles encontros em que a relação entre banda e fãs se torna tão importante quanto o próprio repertório.

Antes do Samiam, o Garage Fuzz mostrou mais uma vez por que permanece como uma das instituições do hardcore melódico brasileiro.

Com mais de três décadas de estrada, a banda santista chegou ao Hangar 110 divulgando o novo EP Powerplant, acrescentando material inédito a uma trajetória fundamental para o gênero no país. A presença do Garage Fuzz na mesma noite fazia enorme sentido.

São bandas que atravessaram décadas sem abandonar suas raízes e que ajudaram, cada uma dentro de seu contexto, a mostrar que hardcore melódico nunca precisou escolher entre agressividade, melodia e emoção.

O retorno do Samiam ao Hangar 110 aconteceu cercado por uma circunstância incomum. Um dia antes, a apresentação que aconteceria em Goiânia precisou ser cancelada por conta do estado de saúde de Jason Beebout, acometido por uma forte gripe. Ainda em recuperação, o vocalista decidiu manter o compromisso paulistano e encontrou uma casa completamente lotada. A condição física era perceptível principalmente entre as músicas e pelo esforço exigido para atravessar toda a apresentação, mas isso não comprometeu diretamente sua maneira de cantar. Beebout sustentou o repertório com segurança e entrega, enquanto a banda manteve a intensidade de um show construído a partir de diferentes momentos de sua história.

Formado em Berkeley, Califórnia, em 1988, o Samiam surgiu dentro da efervescente cena punk da Bay Area e construiu ao longo dos anos uma identidade bastante própria entre o punk rock, o hardcore melódico e uma sensibilidade emocional que mais tarde faria seu nome aparecer associado também ao desenvolvimento do emo. E foi justamente essa trajetória que apareceu no repertório escolhido para São Paulo.

A abertura com “Lake Speed”, faixa de Stowaway, disco lançado em 2023, deixou claro desde o início que o Samiam não estava interessado apenas em oferecer uma sessão de nostalgia. Mesmo depois de tantos anos de estrada, a banda segue olhando para frente, incorporando material recente sem abandonar as músicas que marcaram sua história. Na sequência, “Clean Up the Mess” e “Dead” colocaram o Hangar definitivamente dentro do show, com guitarras altas, melodias reconhecíveis e aquele equilíbrio característico entre urgência e melancolia que sempre acompanhou o grupo.

“Crystallized” manteve o embalo antes de “Factory” provocar uma das primeiras grandes manifestações coletivas da noite. O Hangar 110 é praticamente o ambiente natural para esse tipo de apresentação. Palco baixo, proximidade física, calor, gente espremida e um público que devolve os refrões praticamente na mesma intensidade da banda. Quando “Super Brava” apareceu, a relação entre palco e plateia já havia assumido definitivamente o protagonismo.

Não havia necessidade de grandes discursos ou qualquer tipo de artifício. O Samiam sempre construiu sua reputação sobre músicas capazes de transformar frustrações, inseguranças e conflitos cotidianos em refrões enormes, e era exatamente isso que acontecia novamente diante de uma plateia que conhece essas canções há anos, em alguns casos há décadas. “Bird Bath” veio na sequência, seguida por “Monterey Canyon” e “Lights Out Little Hustler”, ampliando o passeio pela discografia e reforçando a sensação de que o repertório havia sido pensado não em torno de um disco específico, mas da própria história da banda.

Essa escolha tornou a apresentação particularmente interessante. Em vez de recorrer apenas aos clássicos, o Samiam costurou diferentes períodos de sua existência e mostrou como sua linguagem permaneceu surpreendentemente coerente ao longo do tempo. Mudaram os anos, as formações e até o contexto ao redor do punk rock, mas aquela combinação de guitarras melódicas, urgência e vulnerabilidade continua imediatamente reconhecível. “Mexico” reforçou esse aspecto antes de “September Holiday” reconectar o show aos trabalhos mais recentes.

Mesmo debilitado, Jason Beebout não deixou que sua condição interferisse no andamento da apresentação. O esforço físico existia, mas a voz permaneceu firme ao longo do repertório, sem transformar a gripe no centro da noite. O assunto servia mais como contexto para entender o tamanho da disposição do vocalista em subir ao palco depois do cancelamento da data anterior.

Então veio “Dull”, uma das músicas mais queridas do grupo, responsável por transformar o Hangar em um enorme coro. Foi um daqueles momentos em que a música praticamente deixa de pertencer somente à banda e passa a ser carregada também por centenas de vozes espalhadas pela casa. “Mud Hill” manteve o mergulho no catálogo antes de “El Dorado” e “80 West” mostrarem novamente que Stowaway já encontrou seu espaço natural ao lado das músicas mais antigas.

O disco de 2023 encerrou um intervalo de mais de uma década sem um novo álbum de estúdio e mostrou uma banda que não precisa tentar soar jovem para continuar relevante. Há maturidade nas composições mais recentes, mas sem perder a urgência que sempre caracterizou o Samiam. Essa convivência entre passado e presente foi justamente uma das forças do show no Hangar, porque em nenhum momento parecia haver uma divisão clara entre as músicas antigas e o material novo.

Na reta final, porém, era inevitável que a memória afetiva tomasse conta da casa. “Sunshine” reforçou novamente a sensação de estar diante de uma banda cuja influência talvez seja muito maior do que sua popularidade comercial jamais conseguiu dimensionar. Depois veio “She Found You”, recebida como um daqueles clássicos que praticamente dispensam apresentação, e então “Capsized” colocou o ponto final oficial no show.

Foi justamente aí que apareceu a única sensação de ausência da noite. Parte dos fãs ainda esperava por “Full On”, faixa que seria uma escolha praticamente natural para encerrar a apresentação e que acabou ficando de fora do repertório. Depois de um set tão abrangente, atravessando diferentes fases da carreira, a ausência da música deixou aquela impressão de que ainda caberia uma última explosão antes das luzes se acenderem. Nada, porém, que diminuísse o que havia acontecido até ali.

 
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