ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com

Sanctuary ::: 30/08/26 ::: Burning House
Postado em 07 de setembro de 2026 @ 21:16

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Daniel Agapito

Depois de quatro décadas, finalmente a espera acabou. Pela primeira vez na história, o Sanctuary desembarcou no Brasil com a turnê “40 Years of Sanctuary”. A casa escolhida foi a Burning House, em São Paulo, que reuniu uma legião de fãs fervorosos e ansiosos para finalmente conferir de perto uma das bandas mais cultuadas do metal norte-americano. Formado em Seattle, em 1985, o grupo construiu sua reputação com uma combinação particular de heavy, power e thrash metal, tendo à frente, em seus primeiros anos, o lendário Warrel Dane. O encontro com Dave Mustaine foi decisivo para a trajetória da banda: o guitarrista do Megadeth produziu o álbum de estreia, “Refuge Denied”, lançado em 1988 pela Epic Records. Dois anos depois, o Sanctuary entregaria outro clássico, “Into the Mirror Black”, antes de encerrar suas atividades em 1992. A reunião ocorreria em 2010 e resultaria em “The Year the Sun Died”, de 2014, além de uma nova etapa iniciada após a morte de Dane, em 2017.

Para celebrar quarenta anos de história, a banda atual reúne dois integrantes da formação original, o guitarrista Lenny Rutledge e o baterista Dave Budbill, ao lado de George Hernandez no baixo, Joseph Michael nos vocais e Will Wallner na outra guitarra. A entrada de Michael, que assumiu os vocais em 2018, sempre carregaria consigo a inevitável comparação com Warrel Dane, mas o cantor deixou claro desde os primeiros minutos que sua escolha foi acertada. Extremamente confortável no palco, o vocalista demonstrou uma versatilidade impressionante ao transitar entre os registros mais agressivos e os momentos melódicos do repertório, exibindo agudos potentes e uma segurança que foi crescendo ainda mais conforme a apresentação avançava. Musicalmente, o quinteto também foi impecável: guitarras precisas, baixo pulsante, bateria vigorosa e uma execução extremamente coesa fizeram com que o Sanctuary soasse tão grandioso ao vivo quanto nos discos que ajudaram a moldar sua reputação.

A abertura com “Arise and Purify” e “Frozen”, ambas de “The Year the Sun Died”, serviu como uma espécie de cartão de visitas dessa nova fase. Em “Frozen”, Michael chegou a tomar uma garrafa de vinho em pleno palco, antes de saudar os presentes e solicitar alguns ajustes nos retornos e em sua voz. Resolvidos os detalhes técnicos, o que veio em seguida foi um dos primeiros grandes petardos da noite: “Die for My Sins”, clássico de “Refuge Denied”, trouxe os agudos impressionantes do vocalista e os fãs cantando junto. “Seasons of Destruction” manteve a intensidade, com Michael disparando a frase “Kill the war pigs” antes de “Veil of Disguise”, apresentada com bom humor sob a definição do próprio cantor de que um show do Sanctuary envolve “álcool, morte e armas”. A faixa, mais cadenciada, abriu espaço para uma cerveja entregue ao vocalista e para uma interpretação carregada de emoção.

O baixo de Hernandez anunciando “Future Tense” foi suficiente para provocar outra explosão na Burning House, e, a partir daí, o show assumiu definitivamente o espírito de celebração que marcou a noite. “Taste Revenge” transformou o ambiente em uma verdadeira festa, especialmente quando Michael, já completamente à vontade, perguntou em português: “onde está a minha cerveja?”. “Long Since Dark”, “Epitaph” e “The Mirror Black” trouxeram de volta toda a força do período clássico, com Rutledge demonstrando por que continua sendo uma peça fundamental na identidade sonora do Sanctuary. A banda não apenas revisitou seu passado: apresentou aquelas composições com energia e precisão, evitando que a apresentação soasse como algo mecânico e burocrático. O entrosamento entre os músicos foi um dos grandes destaques, com Wallner acrescentando uma camada importante às guitarras e contribuindo para que os arranjos ganhassem ainda mais impacto no palco.

Em determinado momento, era necessário baixar um pouco a temperatura, e o Sanctuary fez isso de maneira bastante particular. A belíssima versão de “Breathe”, do Pink Floyd, trouxe uma atmosfera contemplativa e serviu para “acalmar os ânimos” antes de “White Rabbit”, clássico do Jefferson Airplane que ganhou uma interpretação igualmente interessante. A escolha das duas versões mostrou outro lado da banda e reforçou a versatilidade de Michael, capaz de sair das explosões vocais de “Die for My Sins” para momentos mais delicados sem perder personalidade. Depois da calmaria, “Battle Angels” e “Not of the Living” recolocaram o peso em primeiro plano, enquanto “The Year the Sun Died” ganhou um significado especial ao ser dedicada a Warrel Dane. A homenagem foi conduzida com o respeito que uma trajetória tão importante merecia. A escolha de “Not of the Living” também simbolizou a fase atual do grupo, já que a música, lançada em 2026, é o primeiro material inédito do Sanctuary desde “Inception”, de 2017, e abre caminho para um próximo álbum.

Quando “The Year the Sun Died” parecia encerrar a apresentação, uma situação inusitada acabou acontecendo: um som mecânico disparado pela casa deu a entender para parte do público que a banda não voltaria, fazendo com que alguns fãs deixassem o local. Quem permaneceu, entretanto, foi recompensado com “Soldiers of Steel”, que fechou definitivamente uma noite histórica. Mais do que a estreia brasileira de um nome fundamental do heavy metal de Seattle, o show na Burning House serviu para mostrar que o Sanctuary encontrou uma maneira convincente de honrar sua história sem ficar aprisionado a ela. Com Joseph Michael absolutamente à vontade e dono de uma performance vocal segura, versátil e tecnicamente impressionante, e uma banda impecável em suas execuções, a celebração dos 40 anos passou pelo passado, mas olhando para o futuro. O público brasileiro esperou quatro décadas para ver o Sanctuary ao vivo, e a impressão deixada foi a de que a longa espera, finalmente, valeu cada minuto.

SetlistSanctuary

  1. Arise and Purify
  2. Frozen
  3. Die for My Sins
  4. Seasons of Destruction
  5. Veil of Disguise
  6. Future Tense
  7. Taste Revenge
  8. Long Since Dark
  9. Epitaph
  10. The Mirror Black
  11. Breathe (Pink Floyd cover)
  12. White Rabbit (Jefferson Airplane cover)
  13. Battle Angels
  14. Not of the Living
  15. The Year the Sun Died
  16. Soldiers of Steel
 
ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025