Texto: Marcelo Gomes
Fotos: Daniel Agapito
Depois de quatro décadas, finalmente a espera acabou. Pela primeira vez na história, o Sanctuary desembarcou no Brasil com a turnê “40 Years of Sanctuary”. A casa escolhida foi a Burning House, em São Paulo, que reuniu uma legião de fãs fervorosos e ansiosos para finalmente conferir de perto uma das bandas mais cultuadas do metal norte-americano. Formado em Seattle, em 1985, o grupo construiu sua reputação com uma combinação particular de heavy, power e thrash metal, tendo à frente, em seus primeiros anos, o lendário Warrel Dane. O encontro com Dave Mustaine foi decisivo para a trajetória da banda: o guitarrista do Megadeth produziu o álbum de estreia, “Refuge Denied”, lançado em 1988 pela Epic Records. Dois anos depois, o Sanctuary entregaria outro clássico, “Into the Mirror Black”, antes de encerrar suas atividades em 1992. A reunião ocorreria em 2010 e resultaria em “The Year the Sun Died”, de 2014, além de uma nova etapa iniciada após a morte de Dane, em 2017.
Para celebrar quarenta anos de história, a banda atual reúne dois integrantes da formação original, o guitarrista Lenny Rutledge e o baterista Dave Budbill, ao lado de George Hernandez no baixo, Joseph Michael nos vocais e Will Wallner na outra guitarra. A entrada de Michael, que assumiu os vocais em 2018, sempre carregaria consigo a inevitável comparação com Warrel Dane, mas o cantor deixou claro desde os primeiros minutos que sua escolha foi acertada. Extremamente confortável no palco, o vocalista demonstrou uma versatilidade impressionante ao transitar entre os registros mais agressivos e os momentos melódicos do repertório, exibindo agudos potentes e uma segurança que foi crescendo ainda mais conforme a apresentação avançava. Musicalmente, o quinteto também foi impecável: guitarras precisas, baixo pulsante, bateria vigorosa e uma execução extremamente coesa fizeram com que o Sanctuary soasse tão grandioso ao vivo quanto nos discos que ajudaram a moldar sua reputação.
A abertura com “Arise and Purify” e “Frozen”, ambas de “The Year the Sun Died”, serviu como uma espécie de cartão de visitas dessa nova fase. Em “Frozen”, Michael chegou a tomar uma garrafa de vinho em pleno palco, antes de saudar os presentes e solicitar alguns ajustes nos retornos e em sua voz. Resolvidos os detalhes técnicos, o que veio em seguida foi um dos primeiros grandes petardos da noite: “Die for My Sins”, clássico de “Refuge Denied”, trouxe os agudos impressionantes do vocalista e os fãs cantando junto. “Seasons of Destruction” manteve a intensidade, com Michael disparando a frase “Kill the war pigs” antes de “Veil of Disguise”, apresentada com bom humor sob a definição do próprio cantor de que um show do Sanctuary envolve “álcool, morte e armas”. A faixa, mais cadenciada, abriu espaço para uma cerveja entregue ao vocalista e para uma interpretação carregada de emoção.
O baixo de Hernandez anunciando “Future Tense” foi suficiente para provocar outra explosão na Burning House, e, a partir daí, o show assumiu definitivamente o espírito de celebração que marcou a noite. “Taste Revenge” transformou o ambiente em uma verdadeira festa, especialmente quando Michael, já completamente à vontade, perguntou em português: “onde está a minha cerveja?”. “Long Since Dark”, “Epitaph” e “The Mirror Black” trouxeram de volta toda a força do período clássico, com Rutledge demonstrando por que continua sendo uma peça fundamental na identidade sonora do Sanctuary. A banda não apenas revisitou seu passado: apresentou aquelas composições com energia e precisão, evitando que a apresentação soasse como algo mecânico e burocrático. O entrosamento entre os músicos foi um dos grandes destaques, com Wallner acrescentando uma camada importante às guitarras e contribuindo para que os arranjos ganhassem ainda mais impacto no palco.
Em determinado momento, era necessário baixar um pouco a temperatura, e o Sanctuary fez isso de maneira bastante particular. A belíssima versão de “Breathe”, do Pink Floyd, trouxe uma atmosfera contemplativa e serviu para “acalmar os ânimos” antes de “White Rabbit”, clássico do Jefferson Airplane que ganhou uma interpretação igualmente interessante. A escolha das duas versões mostrou outro lado da banda e reforçou a versatilidade de Michael, capaz de sair das explosões vocais de “Die for My Sins” para momentos mais delicados sem perder personalidade. Depois da calmaria, “Battle Angels” e “Not of the Living” recolocaram o peso em primeiro plano, enquanto “The Year the Sun Died” ganhou um significado especial ao ser dedicada a Warrel Dane. A homenagem foi conduzida com o respeito que uma trajetória tão importante merecia. A escolha de “Not of the Living” também simbolizou a fase atual do grupo, já que a música, lançada em 2026, é o primeiro material inédito do Sanctuary desde “Inception”, de 2017, e abre caminho para um próximo álbum.
Quando “The Year the Sun Died” parecia encerrar a apresentação, uma situação inusitada acabou acontecendo: um som mecânico disparado pela casa deu a entender para parte do público que a banda não voltaria, fazendo com que alguns fãs deixassem o local. Quem permaneceu, entretanto, foi recompensado com “Soldiers of Steel”, que fechou definitivamente uma noite histórica. Mais do que a estreia brasileira de um nome fundamental do heavy metal de Seattle, o show na Burning House serviu para mostrar que o Sanctuary encontrou uma maneira convincente de honrar sua história sem ficar aprisionado a ela. Com Joseph Michael absolutamente à vontade e dono de uma performance vocal segura, versátil e tecnicamente impressionante, e uma banda impecável em suas execuções, a celebração dos 40 anos passou pelo passado, mas olhando para o futuro. O público brasileiro esperou quatro décadas para ver o Sanctuary ao vivo, e a impressão deixada foi a de que a longa espera, finalmente, valeu cada minuto.
SetlistSanctuary
- Arise and Purify
- Frozen
- Die for My Sins
- Seasons of Destruction
- Veil of Disguise
- Future Tense
- Taste Revenge
- Long Since Dark
- Epitaph
- The Mirror Black
- Breathe (Pink Floyd cover)
- White Rabbit (Jefferson Airplane cover)
- Battle Angels
- Not of the Living
- The Year the Sun Died
- Soldiers of Steel




