Texto: Nat Malini
Fotos: Raissa Correa
O combo de quase inverno com chuva não foi o suficiente para afastar os fãs de pós-punk de muita animação do palco do CineJoia em São Paulo neste sábado 20 de junho que contou com as bandas Catiça e Shame.
Mesmo com atraso de quase meia hora para o ínicio das apresentações, a casa encheu-se aos poucos com fãs que foram se entregando cada vez mais à catarse e ao barulho. Ambos muito bem servidos pelas duas bandas.
Catiça pode ser nova na praça, mas entrega como se já vivessem do corre há muito tempo. Formada em 2024 no Paraná, com 2 EP’s e um álbum, seus hits vêm fazendo sucesso na internet e com muita prova ao vivo de que merece chegar num público cada vez maior. Mesmo cada um vestido no seu estilo, o quarteto esteve sintonizados nos riffs rápidos, pesados com elementos que combinam com vários gêneros como o hardcore e até o metal.
Com roda minimalista nas primeiras músicas, quem chegava foi se alinhando com a presença de palcos dos membros se juntando aos gritos e vibrando com as letras enérgicas. Letras cheias de críticas sociais atuais e com contexto como a da música “Ayrton Senna” que relembra a quantidade massiva de vidas perdidas causadas por atropelamentos e outros acidentes com fugas.
O vocalista Nobu também fala sobre comemorar as vitórias da vida, como foi essa noite para a banda, já que um vinil do Shame o acompanhava na sala de sua casa. Além de nos presentear com uma música nova, o quarteto levantou coro com os hits “Low Profile” e “Baixo astral”. Além do salve aos povos originários, a banda não nos deixa esquecer que o punk é vivo para criticar e colocar o dedo na ferida da nossa realidade. Uma apresentação que passou rápido demais, mas que deixa o gosto de que veremos muito mais de Catiça pela cena.

Na espera dos garotos do UK subirem ao palco, vale lembrar que a banda já esteve nos holofotes brasileiros em duas vindas anteriores em 2019 e 2022. Em época de Copa do Mundo, Charlie Steen não só abre metade do show com a camisa do Brasil (Ronaldo 09) e óculos escuros, como tem todas as interações com a platéia falando português. Sendo um ponto de atenção e carinho com os fãs, ou por ser apaixonado e namorar uma brasileira e conhecer melhor a nossa terra.
Dando um alerta de como seria o resto da noite, Charlie anuncia que mesmo sabendo que Shame faz shows pelo mundo inteiro e citando diversos países da América Latina, diz que naquela noite seria o melhor de toda a turnê. Abrindo com “Axis of Evil” e um grito de gol, começam também as corridas e acrobacias do baixista Josh Finerty (com alguns pequenos tombos pela noite). Estimulando a abertura de diversas rodas ao longo do show, houve momentos em que quase a pista toda pulava e dançava em sincronia, mantendo a energia lá em cima na maior parte do tempo. Mesmo com tanta energia, foi uma pena ver o baterista Charlie Forbes escondido no fundo do palco em meio às fumaças e longe do resto da banda. Dependendo do ângulo por onde o público estivesse assistindo, ele ficava escondido pelas caixas de som e equipamentos.
Para equilibrar e dar espaço para outras canções, também tivemos sessões das “tranquilinhas”. Fazendo parte do álbum mais recente da banda “Cutthroat” (2025) tivemos inclusa no setlist, uma das músicas mais aguardadas: “Lampião” que teve sua composição após Charlie comer acarajé e ouvir a história sobre essa figura brasileira e ficar obcecado. A retribuição do carinho da platéia foi traduzida de diversas formas, uma delas a frequência da bandeira do Brasil jogada ao palco (e utilizada como vestido pelo vocal) e também a presença de balões em forma de coração. Outro presente que recebemos foi a canção “Angie” que não é uma música pouco tocada ao vivo.
Entre ritmos suaves e barulhos na loucurinha, Shame também carrega críticas sociais e contemporâneas em suas letras. Mesclando técnicas que trazem variedade para o som com uma criatividade que o pós-punk permite, tivemos Charlie usando meia-lua sem camisa ao iniciar “Six Pack”, abrindo cerveja e gritando saúde e repassando várias vezes o microfone para a platéia mostrar ao que veio. Para fechar com chave de ouro, Charlie fez um rápido stage dive na platéia ao cantar “Cutthroat”. Mesmo com rostos e energia de jovens, a banda mostra que amadureceu muito na qualidade e jornada de seu som.
Com a sensação de que a apresentação passou rápido demais e cheia de “hinos” da banda, os membros não retornaram ao palco para um encore. Muitas pessoas ficaram ali, na esperança de “só mais um pouquinho” afinal o show foi tão bom, que os fãs não queriam que acabasse. Também foi um tipo de apresentação, carinho e interação que deixam a sensação de que logo os ingleses estarão de volta, onde desejamos que esse tempo de espera por um retorno, passe rápido.
Essa foi a única apresentação brasileira da Shame em sua turnê “Cutthroat” que passou por vários países de América Latina, contando com a produção da Balaclava Records.






