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Six Feet Under ::: 01/11/26 ::: Hangar 110
Postado em 03 de novembro de 2026 @ 00:02

Six Feet Under finalmente estréia no Brasil e Barnes mostra que a brutalidade segue intacta

 

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Depois de décadas de espera, anúncios frustrados e uma relação que parecia destinada a nunca se concretizar, finalmente aconteceu: o Six Feet Under pisou em território brasileiro. E, mais do que a estreia de uma das bandas mais longevas do death metal norte-americano por aqui, a passagem teve um peso histórico adicional. Pela primeira vez, os fãs brasileiros puderam ver de perto Chris Barnes à frente de sua principal banda, encerrando uma espera que atravessou praticamente toda a trajetória do grupo. Em São Paulo, no Hangar 110, o encontro serviu para matar uma dívida antiga e comprovar que, polêmicas à parte, Barnes ainda sabe exatamente como comandar um palco de death metal.

Antes que Chris Barnes finalmente colocasse um ponto final em décadas de espera dos fãs brasileiros, o Hangar 110 já respirava metal extremo desde cedo. Coube à paulista Red N’ Hell abrir os trabalhos por volta das 19h, encontrando uma casa que já apresentava bom público. Com quase duas décadas de estrada, o quarteto despejou cerca de meia hora de seu death metal de espírito old school, pesado, cavernoso e sem qualquer preocupação com sutilezas, funcionando perfeitamente como primeiro golpe de uma noite que ainda teria muita brutalidade pela frente.

Pouco depois, às 19h45, foi a vez do Chaos Synopsis assumir o palco. Os veteranos de São José dos Campos, na ativa desde 2005 e vindos de uma temporada que incluiu apresentação no Bangers Open Air, elevaram consideravelmente a temperatura com aproximadamente 40 minutos de death/thrash acelerado, riffs cortantes e vocais guturais. Com o Hangar 110 já lotado e respondendo muito bem à apresentação, o quarteto mostrou por que foi escolhido para acompanhar o Six Feet Under em sua turnê brasileira e deixou o terreno devidamente preparado para a chegada de Chris Barnes e companhia

A presença de grupos nacionais na abertura também reforçou o caráter de celebração do evento, criando uma longa noite dedicada ao metal extremo antes de o Six Feet Under finalmente assumir o palco do Hangar 110.

O Six Feet Under chegou ao Brasil divulgando Next to Die, lançado em 2026 e mais um capítulo de uma discografia que já atravessa três décadas. Mas transformar a apresentação em simples turnê de divulgação seria pouco diante de uma estreia tão aguardada. O repertório percorreu diferentes momentos da carreira, privilegiando principalmente o peso dos primeiros discos e oferecendo ao público uma espécie de retrospectiva daquilo que tornou a banda uma referência particular dentro do gênero: death metal direto, riffs pesados, andamento cadenciado e a voz cavernosa de Barnes funcionando como elemento central.

A história de Chris Barnes praticamente se confunde com a própria consolidação do death metal norte-americano. Vocalista original do Cannibal Corpse, esteve à frente do grupo entre o final dos anos 1980 e meados da década seguinte, gravando trabalhos fundamentais como Eaten Back to Life, Butchered at Birth, Tomb of the Mutilated e The Bleeding. Ainda enquanto fazia parte do Cannibal Corpse, Barnes colocou o Six Feet Under em funcionamento como projeto paralelo. Após sua saída da antiga banda, em 1995, o grupo se tornou sua atividade principal, estreando naquele mesmo período com Haunted e construindo uma identidade menos baseada exclusivamente em velocidade e mais interessada no groove, no peso e em riffs capazes de esmagar lentamente.

Existe ainda outro elo importante com aquele passado. Em uma das guitarras está Jack Owen, outro ex-integrante histórico do Cannibal Corpse e músico diretamente envolvido em boa parte dos discos que ajudaram a estabelecer o nome da banda na década de 1990. Ver Barnes e Owen novamente dividindo um palco naturalmente adiciona uma camada especial à experiência, principalmente para quem acompanhou o nascimento e a expansão do death metal da Flórida. Não se trata, entretanto, de viver apenas de nostalgia. Owen se encaixa perfeitamente na proposta atual do Six Feet Under e ajuda a manter o grupo pesado, preciso e brutal.

A abertura com “War Is Coming” já deixou evidente qual seria a intenção da noite. A sequência formada por “Silent Violence”, “Revenge of the Zombie” e “Lycanthropy” praticamente transportou o público diretamente para os primeiros anos da banda. “Torn to the Bone” e “Feasting on the Blood of the Insane” mantiveram o nível de brutalidade elevado, enquanto “Victim of the Paranoid” reforçou como o catálogo do Six Feet Under funciona especialmente bem ao vivo quando os riffs cadenciados ganham volume e pressão.

Barnes, por sua vez, nunca foi exatamente conhecido por ser o sujeito mais expansivo ou simpático do death metal. Seu comportamento fechado e frequentemente mal-humorado também acompanhou essa passagem pelo Brasil. Na apresentação anterior, em Limeira, o vocalista se envolveu em um episódio que rapidamente ganhou repercussão entre os fãs ao hostilizar uma pessoa que filmava a apresentação. A situação acrescentou mais um capítulo à extensa coleção de controvérsias que acompanha sua carreira e naturalmente dividiu opiniões. Em São Paulo, porém, o que realmente importava começou quando as luzes se apagaram e os amplificadores falaram mais alto.

E é justamente aí que qualquer discussão paralela precisa ser separada da música. Em cima do palco, Chris Barnes entregou. Às portas dos 60 anos, o vocalista ainda consegue encontrar aquele registro grave, sujo e imediatamente reconhecível que ajudou a definir sua trajetória. Evidentemente, décadas de guturais extremos deixam marcas e seria absurdo esperar a mesma voz registrada no início dos anos 1990, mas Barnes não precisa imitar sua própria juventude. Sua abordagem atual funciona dentro do Six Feet Under, carregada de personalidade e sustentada por uma banda que sabe exatamente onde criar espaço para seus vocais.

“Seed of Filth” manteve o massacre antes de “Death or Glory”, do Holocaust, trazer uma das releituras da noite. “Know-Nothing Ingrate” precedeu “Mister Blood and Guts”, representante de Next to Die e prova de que o Six Feet Under não precisava depender somente do passado para manter o público interessado. A versão de “T.N.T.”, do AC/DC, surgiu como mais um daqueles momentos característicos da relação de Barnes com covers, algo explorado inúmeras vezes ao longo da discografia do grupo.

A reta final voltou a concentrar algumas das maiores pancadas da apresentação. “Ghosts of the Undead” abriu caminho para “Human Target” e “Beneath a Black Sky”, preparando terreno para aquilo que inevitavelmente seria um dos pontos de maior comoção da noite. Quando “Stripped, Raped and Strangled” apareceu, o passado de Barnes no Cannibal Corpse tomou conta do Hangar 110. E se ainda faltava alguma coisa para transformar a estreia em uma celebração completa de sua trajetória, “Hammer Smashed Face” resolveu a questão. Um dos maiores clássicos do death metal mundial fechou o círculo entre passado e presente e colocou frente a frente uma música que ajudou a transformar Barnes em personagem fundamental da história do gênero e um público brasileiro que esperou décadas para finalmente ouvi-la em sua voz.

Talvez Chris Barnes nunca seja o frontman que distribui sorrisos, conversa longamente com o público ou tenta conquistar simpatia entre uma música e outra. Sua figura continua cercada por opiniões fortes, declarações controversas e episódios capazes de alimentar discussões muito depois do fim dos shows. Mas reduzir sua importância a essas questões seria ignorar uma contribuição gigantesca para o death metal. Da primeira fase do Cannibal Corpse aos mais de 30 anos comandando o Six Feet Under, Barnes deixou uma assinatura vocal impossível de confundir.

A estreia brasileira demorou mais do que deveria. O Six Feet Under chegou a ter apresentações anunciadas por aqui no passado, mas o encontro nunca se concretizou. Desta vez não houve promessa quebrada. Barnes finalmente subiu em um palco brasileiro com sua banda, Jack Owen estava ao seu lado e um repertório recheado de músicas de diferentes fases entregou exatamente aquilo que os fãs esperavam: death metal pesado, direto e sem qualquer preocupação em parecer moderno.

Polêmicas continuarão fazendo parte do pacote chamado Chris Barnes. O mau humor provavelmente também. Mas quando “Hammer Smashed Face” encerrou a apresentação, a sensação era de uma dívida finalmente paga. Aos 59 anos, Barnes mostrou que ainda existe combustível naquele gutural que atravessou gerações e, principalmente, que o Six Feet Under continua sendo muito mais interessante quando deixa todas as discussões do lado de fora e simplesmente faz aquilo que sabe melhor: subir o volume e esmagar tudo pela frente.

Setlist – Six Feet Under

War Is Coming
Silent Violence
Revenge of the Zombie
Lycanthropy
Torn to the Bone
Feasting on the Blood of the Insane
Victim of the Paranoid
Seed of Filth
Death or Glory (Holocaust cover)
Know-Nothing Ingrate
Mister Blood and Guts
T.N.T. (AC/DC cover)
Ghosts of the Undead
Human Target
Beneath a Black Sky
Stripped, Raped and Strangled (Cannibal Corpse)
Hammer Smashed Face (Cannibal Corpse)

 

 

 
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