Texto : Daniel A. Faccini
Fotos: Flavio Santiago
Mais de seis décadas depois de redefinirem a paisagem musical da Jamaica, os The Skatalites mostraram no Cine Joia, em São Paulo, que pertencem ao seleto grupo de artistas cuja relevância não se esgota com o tempo. A apresentação, realizada diante de uma plateia calorosa, reforçou a condição quase mítica da banda, responsável pela consolidação do ska como linguagem universal e pedra fundamental para o surgimento do rocksteady e do reggae.
Formados em 1964 em Kingston, originalmente como um supergrupo de músicos de estúdio que gravavam para o lendário Studio One, os Skatalites se tornaram rapidamente a espinha dorsal da música jamaicana moderna. Seu repertório, construído a partir de uma fusão particular entre jazz, mento, R&B e calipso, moldou não apenas a sonoridade da ilha, mas também as bases para que artistas como Bob Marley, Peter Tosh, Toots Hibbert e tantos outros encontrassem caminhos estilísticos. O conjunto, dissolvido brevemente ainda nos anos 60, retomou atividades em 1983 e passou a viajar o mundo levando o ska às novas gerações — uma missão que se mantém viva mesmo após a perda de muitos integrantes originais.
No Cine Joia, essa história se fez sentir desde os primeiros compassos. A casa lotada recebeu a banda com entusiasmo imediato, numa atmosfera que misturava celebração, memória afetiva e a surpresa renovada de ver, ao vivo, um dos grupos mais influentes da música global. A plateia, composta tanto por veteranos do ska quanto por curiosos recém-chegados ao gênero, se rendeu ao magnetismo do show já nas primeiras músicas, embalando-se num vaivém contínuo que traduzia a vocação dançante do estilo.
O repertório percorreu clássicos indispensáveis do catálogo dos Skatalites, valorizando arranjos de metais que soaram vibrantes e cristalinos. Peças como “Latin Goes Ska”, “Guns of Navarone”, “Rock Fort Rock”, “Phoenix City” e “Eastern Standard Time” surgiram com aquele balanço inconfundível, sustentado por uma cozinha rítmica que pulsa com precisão e liberdade jazzística. A performance do grupo, embora marcada pela maturidade dos músicos, permaneceu incrivelmente quente, reforçando a natureza expansiva do ska — um gênero feito para ocupar o corpo antes mesmo de ocupar o pensamento.
A interação da banda com o público foi igualmente decisiva para a construção de uma noite memorável. Entre sorrisos, conversas rápidas e gestos de cumplicidade, os músicos conduziram a apresentação como quem revisita memórias afetivas, mas também como quem reconhece a potência de manter essa chama acesa em territórios tão distantes da Jamaica. A resposta da audiência foi proporcional: danças espontâneas, gritos de celebração e uma vibração coletiva que transformou o Cine Joia num grande baile de resistência cultural.
Assistir aos Skatalites ao vivo é, inevitavelmente, entrar em contato com a própria história. Há algo quase pedagógico na maneira como a banda apresenta suas músicas: os arranjos preservam a estrutura clássica, mas ganham nuances contemporâneas que revelam a longevidade do ska como linguagem musical. Não é nostalgia pelo passado — é afirmação de um legado que continua a influenciar gerações de músicos, de punks a sound systems, de coletivos de jazz a bandas de rock alternativo.
Ao final do show, restava a sensação de que se presenciou algo raro: uma combinação de técnica, carisma e relevância histórica que poucos artistas conseguem sustentar por tanto tempo. O Cine Joia, com sua acústica característica e atmosfera intimista, funcionou como cenário perfeito para essa comunhão entre passado e presente, tradição e reinvenção.
Os Skatalites deixaram São Paulo com a autoridade de quem construiu um gênero inteiro e, ainda hoje, o executa com a mesma vitalidade contagiante que marcou suas primeiras gravações. Para o público que esteve lá, a noite foi mais do que um show — foi a oportunidade de ver a história acontecer diante dos olhos, em forma de música que pulsa, respira e continua transformando o mundo ao seu redor.






