Sparta finalmente estreia no Brasil e transforma longa espera em noite especial em São Paulo
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Foram mais de duas décadas de espera, mas finalmente chegou a vez do público brasileiro conferir o Sparta de perto. A banda norte-americana fez sua primeira apresentação no país na Burning House, em São Paulo, entregando um show relativamente curto, mas consistente, intenso e capaz de justificar a expectativa de quem aguardava há anos por esse encontro.
A história do Sparta começa justamente a partir de um dos capítulos mais importantes do post-hardcore norte-americano. A banda nasceu em El Paso, no Texas, em 2001, após o fim do At the Drive-In. Jim Ward, Paul Hinojos e Tony Hajjar seguiram juntos em um novo projeto, posteriormente completado por Matt Miller, buscando um caminho que preservava parte da intensidade de sua antiga banda, mas apostava em estruturas mais melódicas, atmosféricas e introspectivas.
O primeiro álbum, Wiretap Scars, lançado em 2002, rapidamente colocou o Sparta entre os nomes mais interessantes daquela geração. Vieram depois Porcelain, de 2004, e Threes, de 2006, antes de um longo período de menor atividade. Jim Ward retomaria a banda anos depois, lançando Trust the River, em 2020, e o autointitulado Sparta, em 2022. Agora, o grupo vive um novo momento com Cut a Silhouette, trabalho mais recente e que também serve de combustível para a atual turnê.
Para os fãs brasileiros, porém, havia uma pendência histórica. Enquanto diferentes nomes ligados à explosão do post-hardcore dos anos 2000 passaram pelo país ao longo dos anos, o Sparta continuava sendo aquela banda que muita gente conhecia dos discos, mas nunca havia conseguido assistir ao vivo por aqui. Na Burning House, essa dívida finalmente foi paga.
E o grupo não perdeu tempo. A abertura com “Red Alibi”, faixa de Wiretap Scars, funcionou quase como uma declaração de intenções. Bastaram os primeiros minutos para deixar claro que aquela seria uma apresentação concentrada principalmente na trajetória da banda, sem espaço para enrolação. Para quem esperou tanto tempo pelo Sparta, começar justamente revisitando o disco de estreia ajudou a estabelecer imediatamente a conexão entre palco e público.
“Breaking the Broken”, de Porcelain, veio logo depois, seguida por “Taking Back Control”, representante de Threes. Em apenas três músicas, o Sparta já havia passado pelos três primeiros discos da carreira, oferecendo uma espécie de resumo de sua fase clássica.
A sequência com “Collapse” e “La Cerca” reforçou ainda mais o peso de Wiretap Scars dentro do repertório. É um disco que envelheceu muito bem e continua sendo uma das melhores portas de entrada para entender a identidade do Sparta. Ao vivo, suas músicas mantêm aquela combinação de guitarras densas, melodias melancólicas e explosões emocionais que ajudaram a separar a banda de outros nomes surgidos no mesmo período.
Mesmo com toda a nostalgia naturalmente envolvida em uma estreia aguardada por tantos anos, o Sparta não veio ao Brasil apenas para viver do passado. “Miracle” trouxe o repertório para um período mais recente da banda, mostrando um Jim Ward que continua interessado em movimentar o projeto e não simplesmente transformá-lo em uma celebração permanente dos primeiros discos.
Na sequência, “Sans Cosm” voltou a Wiretap Scars e encontrou uma plateia completamente entregue. O interessante foi perceber como músicas lançadas há mais de vinte anos continuam funcionando sem parecer peças de museu. Existe uma carga emocional muito particular no som do Sparta, algo que talvez explique por que a banda manteve uma base de fãs tão fiel mesmo durante seus períodos de menor atividade.
“Everything You Say” manteve o show avançando sem grandes interrupções antes de “Light Burns Clear” recolocar Porcelain no centro da apresentação. Essa alternância entre momentos mais agressivos e passagens melódicas foi uma das forças da noite. O Sparta nunca precisou depender exclusivamente de velocidade ou peso para criar intensidade. Muitas vezes é justamente quando as músicas respiram que o impacto aparece com maior força.
A reta final começou a ganhar contornos ainda mais emocionais com “Mystery of Missing”, seguida por “While Oceana Sleeps”. Para quem acompanhou a banda durante os anos 2000, foi aquele tipo de sequência capaz de transportar imediatamente para uma época em que Wiretap Scars e Porcelain circulavam entre fãs de emo, post-hardcore e rock alternativo sem necessariamente caber perfeitamente em nenhuma dessas gavetas.
E havia ainda algumas cartas importantes para serem colocadas na mesa.
“Glasshouse Tarot” apareceu já perto do final e foi um daqueles momentos que sintetizaram muito bem a noite. Uma das músicas mais marcantes do primeiro álbum, ela carrega praticamente todos os elementos que fizeram o Sparta conquistar seu espaço próprio depois do At the Drive-In. Peso, tensão, melodia e aquela sensação permanente de que a música pode explodir a qualquer momento.
“Glimmer” preparou o terreno para o encerramento com “Air”, novamente mergulhando no repertório de Wiretap Scars. Foi uma escolha certeira para fechar a primeira passagem da banda pelo Brasil e também deixou aquela inevitável sensação de que ainda havia espaço para mais algumas músicas.
Talvez esse tenha sido o único gosto amargo da noite. Depois de tantos anos esperando pelo Sparta, o show passou rápido. Rápido até demais. Mas é difícil reclamar quando aquilo que foi apresentado funcionou tão bem.
Não houve necessidade de grandes produções ou qualquer elemento que desviasse a atenção das músicas. O que o público encontrou na Burning House foi uma banda segura de seu repertório, tocando de maneira consistente e entendendo perfeitamente o significado daquela primeira apresentação para os fãs brasileiros.
E talvez justamente por isso a duração tenha parecido ainda menor. Quando um show não funciona, uma hora pode parecer uma eternidade. Quando existe conexão, quinze músicas desaparecem em um instante.
A estreia do Sparta no Brasil pertence claramente ao segundo caso.
A espera foi longa, o encontro foi curto, mas valeu a pena. Depois de mais de duas décadas acompanhando a banda à distância, os fãs brasileiros finalmente puderam transformar discos, lembranças e expectativas em uma experiência ao vivo. E, pela reação de quem esteve na Burning House, o Sparta demorou para chegar, mas encontrou por aqui um público que estava mais do que pronto para recebê-lo.



