Texto: Luana Silva
Fotos: Bianca Amorim
A Supercombo subiu ao palco da Audio, em São Paulo, como quem apresenta um retrato fiel do próprio tempo. O show integrou a turnê do álbum mais recente, um trabalho que escancara maturidade, inquietação e um certo desencanto lúcido, marcas que acompanham a banda desde os primeiros registros, mas que agora surgem mais bem resolvidas e musicalmente afiadas.
O disco que dá nome à turnê funciona quase como um diário de sobrevivência emocional em tempos acelerados, e isso se refletiu claramente na apresentação. As músicas novas não foram tratadas como meros acréscimos ao repertório, mas como o eixo central do espetáculo. Ao vivo, elas ganharam mais corpo, mais urgência e um peso emocional que dialogou diretamente com o público, que respondeu com atenção rara e envolvimento genuíno.
A Supercombo sempre foi uma banda que entendeu o palco como espaço de troca, e não de exibição. Na Audio, essa característica apareceu de forma orgânica. Não houve necessidade de grandes discursos ou efeitos cênicos exagerados. As canções falaram por si. Guitarras cortantes, baixo pulsante e bateria precisa sustentaram arranjos que transitam entre o rock alternativo, o pop torto e momentos de melancolia aberta, tudo conduzido por vocais que carregam fragilidade sem perder firmeza.
As músicas do novo álbum se encaixaram naturalmente ao lado de faixas mais antigas, criando um roteiro que parecia menos uma coletânea de sucessos e mais uma linha do tempo emocional da banda. Em vários momentos, o público assumiu o papel de coro, cantando letras que soam confessionais, quase terapêuticas, como se cada verso fosse compartilhado entre palco e plateia. É nesse ponto que a Supercombo se diferencia dentro do cenário nacional, ao transformar vulnerabilidade em força coletiva.
O show seguiu sem quedas de energia, mantendo uma narrativa coesa até o fim. Quando chegaram as músicas mais conhecidas, elas soaram renovadas, carregadas pela experiência acumulada ao longo da turnê. O encerramento teve clima de celebração contida, menos euforia gratuita e mais sensação de pertencimento, como se todos ali compartilhassem a mesma história, ainda em construção.
A apresentação na Audio deixou claro que a turnê do último álbum não é apenas a divulgação de um novo trabalho, mas a afirmação de uma banda confortável com suas contradições, consciente do próprio percurso e disposta a seguir explorando sentimentos que nem sempre pedem respostas fáceis. A Supercombo saiu do palco reafirmando seu lugar como uma das formações mais relevantes e honestas do rock brasileiro contemporâneo.
Setlist do show na Audio em São Paulo
A Transmissão
Maremotos
Rogério
Alento
Imã
Sol da Manhã
Testa
Nossas Pitangas
Amianto
O Guerreiro e a Selva
Meu Colorista
Fim do Mundo
Alfaiate
Menina Lagarta
Monstros
Aos Poucos
Jovem
Bonsai
Hoje Eu Tô Zen
Piseiro Black Sabbath
Piloto Automático
Todo Dia É Dia de Comemorar






