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Swallow The Sun ::: 11/08/26 ::: Hangar 110
Postado em 28 de agosto de 2026 @ 03:06

Swallow The Sun transforma o Hangar 110 em um mergulho de peso e melancolia

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Três anos depois de sua última passagem pelo Brasil, o Swallow The Sun retornou a São Paulo para mostrar mais uma vez por que ocupa uma posição tão particular dentro do metal europeu contemporâneo. Em sua terceira visita ao país, os finlandeses desembarcaram no Hangar 110 na terça-feira, 11 de agosto, para a única apresentação brasileira da turnê “Shining Over Latin America”, que abriu justamente por aqui antes de seguir por outros países da América Latina.

Formado em 2000, na cidade finlandesa de Jyväskylä, o Swallow The Sun construiu uma carreira baseada em uma combinação que parece simples no papel, mas que poucas bandas conseguem executar com tamanha personalidade: o peso do death/doom, melodias carregadas de melancolia e longas passagens atmosféricas. Sob a liderança criativa do guitarrista e compositor Juha Raivio, o grupo atravessou mais de duas décadas sem perder essa identidade, ainda que tenha ampliado consideravelmente sua paleta sonora ao longo dos anos.

A passagem por São Paulo também tinha um significado especial por divulgar “Shining”, álbum lançado em 2024 e que mostrou uma face mais direta e melódica do grupo. O disco, sucessor de Moonflowers, recebeu o prêmio de Metal do Ano no Emma Gaala finlandês em 2025 e abriu espaço para refrões maiores e melodias mais evidentes sem eliminar completamente a escuridão característica do Swallow The Sun.

O interessante é que, apesar de Shining dar nome à turnê, o repertório apresentado no Hangar 110 não se transformou em uma simples vitrine do álbum novo. Muito pelo contrário. O Swallow The Sun aproveitou a noite para olhar bastante para o passado, construindo um set que funcionou quase como um reencontro com diferentes fases de sua trajetória.

Com a introdução gravada de “Velvet Chains” preparando o ambiente, os músicos assumiram o palco e começaram efetivamente com “Innocence Was Long Forgotten”. A escolha não poderia representar melhor o momento atual da banda. Melódica, soturna e envolvente, a faixa apresentou imediatamente a atmosfera que dominaria boa parte da apresentação.

O som do Hangar 110 ajudou bastante. Instrumentos bem definidos permitiam perceber as camadas das composições, algo fundamental para uma banda cuja força não está apenas no peso, mas também nos pequenos detalhes que surgem entre guitarras, teclados e passagens atmosféricas.

Mas qualquer possibilidade de imaginar que seria uma noite concentrada apenas no lado contemplativo desapareceu rapidamente com “Descending Winters”. Resgatada de Ghosts of Loss, de 2005, a música colocou em primeiro plano a outra personalidade do Swallow The Sun. Guitarras pesadas, andamento arrastado e os guturais de Mikko Kotamäki transformaram completamente o ambiente.

E talvez esteja justamente aí o grande trunfo da banda ao vivo.

O Swallow The Sun não precisa escolher entre brutalidade e beleza. As duas coisas convivem o tempo inteiro.

Kotamäki é peça fundamental nessa equação. Econômico nas palavras e longe de qualquer comportamento típico de frontman que tenta comandar o público a cada intervalo, ele deixa as próprias músicas assumirem esse papel. Quando canta de maneira limpa, reforça a dimensão melancólica das composições. Quando parte para os guturais, parece mudar completamente de personagem.

A sequência com “New Moon” e “Under the Moon & Sun” aprofundou esse contraste. A primeira, faixa-título do álbum de 2009, apareceu como uma das músicas recebidas com maior familiaridade pelo público, enquanto “Under the Moon & Sun” ajudou a manter aquela sensação quase hipnótica que se instalava no Hangar 110.

Não era um show construído em torno de grandes discursos, brincadeiras ou movimentações excessivas no palco. A comunicação acontecia essencialmente através das músicas. Mikko agradecia brevemente, quase sempre de maneira contida, e a plateia parecia compreender perfeitamente essa dinâmica.

Então veio “Don’t Fall Asleep (Horror, Part 2)”.

Retirada de Hope, de 2007, a faixa trouxe novamente o Swallow The Sun para terrenos mais agressivos. Era interessante observar como alguns momentos despertavam uma reação física imediata no público, enquanto outros faziam praticamente todo mundo permanecer imóvel, apenas acompanhando as mudanças de clima das composições.

Um dos maiores presentes para quem acompanha a banda desde os primeiros discos surgiu logo depois.

“Out of This Gloomy Light”, do álbum de estreia The Morning Never Came, de 2003, recuperou o Swallow The Sun de sua fase mais primordial. A reação imediata mostrou que havia uma parcela considerável de fãs antigos no Hangar 110. Ao vivo, a composição ganhou contornos ainda mais pesados, principalmente pela performance vocal de Kotamäki.

A escolha também reforçou uma característica interessante daquele repertório. Apesar de estar promovendo um trabalho relativamente recente, a banda não teve receio de mergulhar profundamente em seu catálogo.

Depois da densidade dos primeiros anos, “November Dust” trouxe novamente espaço para uma abordagem mais melódica antes de “Hope” recuperar a atmosfera do terceiro álbum. Foi uma parte do espetáculo que deixou bastante clara a evolução do grupo. O Swallow The Sun atual é diferente daquele que gravou The Morning Never Came, mas a essência continua reconhecível.

Se havia uma música de Shining que precisava aparecer naquele momento, era “MelancHoly”.

Uma das melhores composições do disco mais recente também se mostrou um dos grandes momentos da noite. Seu refrão funciona ainda melhor ao vivo e trouxe uma resposta mais evidente da plateia. Em meio a um repertório tão carregado emocionalmente, a faixa ofereceu um raro momento em que a melancolia do Swallow The Sun parecia assumir uma dimensão quase grandiosa.

A reta final da primeira parte voltou a New Moon com “Falling World”, antes de “These Woods Breathe Evil” levar novamente o espetáculo para um terreno mais sombrio. Era uma conclusão coerente para um show construído sobre contrastes. Sempre que parecia que a apresentação mergulharia definitivamente na contemplação, surgia uma parede de guitarras e guturais para destruir essa sensação.

O bis reservou espaço exclusivamente para o passado.

“Deadly Nightshade” abriu o retorno da banda ao palco antes da inevitável “Swallow (Horror, Part 1)”, novamente levando o público ao primeiro álbum. Mais de duas décadas depois de sua gravação, a faixa continua funcionando como uma espécie de síntese do DNA do grupo e permanece como escolha recorrente para encerrar suas apresentações.

Foi justamente nesse trecho final que Mikko Kotamäki mostrou de maneira ainda mais evidente por que sua voz combina tão bem com o death/doom. Não por acaso, sua entrada no My Dying Bride parece tão natural. Os guturais profundos e a capacidade de mudar rapidamente para registros limpos fazem dele um vocalista especialmente adequado para músicas que precisam transmitir peso e vulnerabilidade praticamente ao mesmo tempo.

Sem recorrer a grandes recursos de palco, o Swallow The Sun fez do próprio repertório o centro absoluto da apresentação. E funcionou.

O Hangar 110 não estava lotado, mas reuniu um público bastante envolvido, que respondeu às músicas durante toda a apresentação. Talvez um show como esse nem precisasse de outra coisa. A música do Swallow The Sun nunca foi exatamente feita para celebrações convencionais. Ela pede atenção, cria ambientes e trabalha emoções que dificilmente cabem dentro da ideia tradicional de entretenimento.

Ao abrir a “Shining Over Latin America” em São Paulo, os finlandeses entregaram muito mais do que uma apresentação promocional do álbum recente. O repertório percorreu especialmente os primeiros anos da carreira, passou por diferentes momentos da discografia e colocou lado a lado a banda de 2003 e aquela que existe em 2026.

Depois de pouco mais de uma hora mergulhado naquele universo, ficou novamente evidente por que o Swallow The Sun se tornou um dos nomes fundamentais do death/doom melódico deste século.

Existem bandas que utilizam a melancolia como estética. No caso do Swallow The Sun, ela parece fazer parte da própria estrutura das músicas.

E no Hangar 110, durante uma noite de agosto em São Paulo, essa melancolia ganhou peso, volume e forma.

Setlist

Velvet Chains (introdução gravada)
Innocence Was Long Forgotten
Descending Winters
New Moon
Under the Moon & Sun
Don’t Fall Asleep (Horror, Part 2)
Out of This Gloomy Light
November Dust
Hope
MelancHoly
Falling World
These Woods Breathe Evil

Bis

Deadly Nightshade
Swallow (Horror, Part 1)

 

 
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