Texto e Fotos: Flavio Santiago
Depois de mais de duas décadas de carreira e uma reputação consolidada entre os nomes mais inventivos do post-hardcore, o trio norte-americano The Fall of Troy finalmente fez sua estreia em território brasileiro no dia 8 de março de 2026, no Carioca Club, em São Paulo. A apresentação integrou a turnê latino-americana que celebra os vinte anos de “Doppelgänger”, álbum que ajudou a redefinir os limites técnicos do gênero nos anos 2000.
Formada em 2002 na cidade de Mukilteo, no estado de Washington, a banda construiu sua identidade musical a partir de riffs intrincados, métricas irregulares e mudanças abruptas de andamento, misturando agressividade hardcore com uma abordagem quase progressiva na estrutura das músicas. Esse DNA sonoro ficou evidente desde os primeiros minutos do show em São Paulo, deixando claro que a longa espera dos fãs brasileiros seria recompensada com uma performance intensa e imprevisível.
Embora o público tenha chegado aos poucos no início da noite, o clima mudou rapidamente próximo do horário marcado. Quando o relógio marcou 20 horas, o trio subiu ao palco e abriu o repertório com “Mouths Like Sidewinder Missiles”, faixa clássica do álbum de estreia que imediatamente colocou o público em movimento. A energia da plateia transformou o ambiente do Carioca Club em um verdadeiro turbilhão de mosh pits e coro coletivo, mesmo sem a casa completamente lotada.
No palco, o guitarrista e vocalista Thomas Erak mostrou por que é considerado um dos músicos mais carismáticos da cena alternativa. Alternando entre riffs complexos e vocais que transitam entre o melódico e o gritado, ele comandou a apresentação com teatralidade e humor. Em determinado momento comentou que sua voz estava um pouco desgastada por conta da turnê e do aniversário comemorado na noite anterior, mas seguiu em frente sem comprometer a performance, reforçando o espírito visceral do rock ao vivo.
Ao lado dele, o baixista Jon-Henry Batts e o baterista Andrew Forsman formaram uma base rítmica impressionante. Forsman especialmente chamou atenção pelo domínio técnico, alternando grooves quebrados e explosões hardcore com uma precisão quase matemática, característica que sempre diferenciou o som da banda dentro do universo do post-hardcore.
Outro aspecto que tornou a apresentação especial foi a sensação constante de improviso. A banda não trabalha com um setlist totalmente rígido, e algumas transições entre músicas parecem ser decididas no próprio palco, criando momentos espontâneos que tornam cada show único. Em uma dessas pausas, enquanto resolviam um pequeno problema na bateria, os músicos chegaram a tocar o riff de “Raining Blood”, do Slayer, arrancando risadas e aplausos da plateia.
O repertório percorreu diferentes fases da discografia, com destaque para faixas como “Laces Out, Dan!”, “Cut Down All the Trees and Name the Streets After Them”, “Straight-Jacket Keelhauled” e “You Got a Death Wish, Johnny Truant?”. Também houve espaço para músicas mais recentes, como “Chain Wallet, Nike Shoes”, mostrando que a banda continua expandindo seu repertório mesmo após anos de estrada.
A apresentação caminhou para o clímax com a execução de “F.C.P.R.E.M.I.X.”, possivelmente a música mais conhecida do grupo. O público cantou tão alto que, em determinados momentos, Erak simplesmente deixou os fãs assumirem os vocais, transformando o encerramento em uma celebração coletiva entre banda e plateia.
Ao final da noite, o sentimento dominante era de satisfação. Para muitos presentes, tratava-se da realização de um sonho cultivado desde os tempos em que o som caótico e virtuoso do The Fall of Troy circulava principalmente entre fãs de nicho na internet. A estreia brasileira provou que a banda continua capaz de entregar apresentações explosivas e tecnicamente impressionantes, reafirmando seu status como uma das formações mais criativas do post-hardcore moderno.
Se depender da reação do público paulista e da empolgação demonstrada pelos próprios músicos após o show, essa primeira visita dificilmente será a última.












