Texto: Marcelo Gomes
Fotos; Flavio Santiago
O tempo pode transformar tendências, renovar gerações e mudar os rumos de uma banda, mas existem discos cuja importância permanece intacta, independentemente de quantos anos se passaram. Foi justamente essa sensação que tomou conta da Audio, em São Paulo, na quinta-feira, 15 de outubro, quando o The Gathering reencontrou o público brasileiro com a formação responsável por Mandylion (1995), um dos trabalhos mais emblemáticos do metal atmosférico dos anos 1990. Celebrando os 30 anos do álbum, o grupo holandês reuniu novamente sua formação original, proporcionando uma noite que foi muito além da nostalgia. Com a casa cheia e uma plateia que conhecia cada detalhe daquele repertório, o espetáculo transformou a comemoração em uma verdadeira viagem por uma das fases mais marcantes da história do grupo.
Às 21h, o The Gathering subiu ao palco com Anneke van Giersbergen (vocais), René Rutten (guitarra), Jelmer Wiersma (guitarra), Hugo Prinsen Geerligs (baixo), Frank Boeijen (teclados) e Hans Rutten (bateria) para delírio dos fãs. A abertura com um trecho de Mandylion, utilizado como introdução, preparou a chegada de “Eléanor”, responsável por desencadear uma resposta calorosa do público.
A reação à presença de Anneke foi imediata, e a cantora demonstrou a razão pela qual sua passagem pela banda permanece tão significativa. Com uma voz que combina delicadeza, potência e expressividade, ela conduziu a apresentação sem depender de excessos, alternando momentos de entrega emocional com uma presença de palco espontânea e carismática. Na sequência, “Fear the Sea” evidenciou a força dos riffs e a dinâmica instrumental que distinguem o disco, enquanto “In Motion #1” trouxe uma atmosfera mais contemplativa, com teclados envolventes e um refrão que encontrou na plateia um coro à altura. O contraste entre peso e sutileza, marca registrada daquela fase, continuava tão convincente quanto na época do lançamento.
A sequência com “On Most Surfaces (Inuït)”, do álbum Nighttime Birds (1997), ampliou a perspectiva daquela reunião, mostrando que a celebração não ficaria restrita ao disco de 1995. Já “Broken Glass” e “Waking Hour” ressaltaram diferentes facetas da identidade musical do The Gathering, entre passagens instrumentais encorpadas e construções melódicas que convidam o ouvinte a mergulhar na música.
A formação reunida mostrou entrosamento e segurança, sustentando as mudanças de andamento sem comprometer o andamento das composições. Anneke, por sua vez, manteve uma conexão constante com os presentes, que respondiam fervorosamente e acompanhavam as canções em diferentes intensidades. Era possível perceber como aquelas músicas ultrapassaram a condição de simples registros fonográficos para se tornarem parte da história pessoal de muitos dos que estavam ali.
O passeio pela discografia ganhou um capítulo particularmente interessante com “Probably Built in the Fifties”, de How to Measure a Planet? (1998), seguida por “Liberty Bell”, que não era executada ao vivo desde 2007. A escolha evidenciou a disposição do grupo em oferecer algo além do repertório previsível, contemplando diferentes momentos de sua trajetória. “Analog Park”, de if_then_else (2000), deu continuidade a essa viagem, enquanto “In Motion #2” resgatou a atmosfera mais pesada de Mandylion. Em seguida, “Leaves” proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite, com a interpretação expressiva de Anneke reforçando a beleza de uma composição que atravessa gerações. Já “Sand and Mercury” destacou a riqueza dos arranjos e a capacidade dos músicos de construir paisagens sonoras que alternam delicadeza, intensidade e contemplação.
O encerramento da apresentação principal com “Strange Machines” elevou novamente a temperatura da Audio, antes de o grupo retornar para o bis com “Travel”. A surpresa ficou por conta de “Third Chance”, outra música que não era tocada desde 2007, ampliando o caráter especial daquela noite.
Para fechar, “Saturnine” reuniu todos os elementos que fizeram da fase de Anneke um período tão celebrado: melodia, atmosfera e uma interpretação vocal capaz de transformar uma canção em experiência imersiva. Ao longo de aproximadamente duas horas, os músicos demonstraram que o repertório continua vivo, preservando a personalidade original das composições sem depender apenas da memória afetiva dos fãs.
O retorno do The Gathering ao Brasil representou a oportunidade de reencontrar uma formação fundamental para a história do grupo e reviver um álbum que ajudou a expandir os limites do metal nos anos 1990. A apresentação na Audio mostrou que Mandylion não envelheceu: suas composições continuam capazes de emocionar, surpreender e aproximar pessoas por meio de uma linguagem musical singular. Anneke, René, Jelmer, Hugo, Frank e Hans entregaram uma atuação à altura da expectativa, enquanto o público respondeu com a devoção de quem esperou anos por esse reencontro.
Se a reunião tem caráter comemorativo e não representa necessariamente uma volta definitiva dessa formação, a noite de 15 de outubro já garantiu seu lugar entre os acontecimentos mais especiais do calendário do metal em 2026. Afinal, poucas experiências são tão significativas quanto ver um disco que marcou tantas vidas ganhar novamente forma diante de nossos olhos, interpretado pelos próprios músicos que ajudaram a torná-lo eterno.
SETLIST
Eléanor
Fear the Sea
In Motion #1
On Most Surfaces (Inuït)
Broken Glass
Waking Hour
Probably Built in the Fifties
Liberty Bell (First time since 2007)
Analog Park
In Motion #2
Leaves
Sand and Mercury
Strange Machines
Encore:
Travel
Third Chance (First time since 2007)
Saturnine








