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The Slackers :::04/09/26 ::: Cine Joia
Postado em 07 de setembro de 2026 @ 16:49

The Slackers transforma o Cine Joia em pista de ska em retorno festivo a São Paulo

 

Celebrando 35 anos de estrada, banda nova-iorquina passeou pelo ska, reggae e rocksteady, revisitou Jorge Ben e recebeu B Negão para uma versão de “Pressure Drop”, clássico do Toots and the Maytals

 

Texto: Simone Barbosa

Fotos: Flavio Santiago

Existem bandas que envelhecem junto com sua própria história e outras que parecem simplesmente continuar tocando como se o tempo fosse apenas mais um elemento do repertório. O The Slackers pertence claramente ao segundo grupo. De volta ao Brasil, a veterana formação de Nova York subiu ao palco do Cine Joia, em São Paulo, no dia 4 de setembro, para celebrar 35 anos de carreira com o tipo de apresentação que explica por que o grupo permanece como uma das referências do ska norte-americano. Não foi uma noite baseada apenas em nostalgia ou na reverência ao passado. Foi, acima de tudo, uma festa.

Formado em Nova York em 1991, o The Slackers apareceu justamente quando o ska começava a viver uma nova expansão nos Estados Unidos. Enquanto muitas bandas daquela geração aproximavam o gênero cada vez mais do punk rock, o grupo seguiu por um caminho próprio, buscando diretamente as raízes jamaicanas do ska, do reggae, do dub e principalmente do rocksteady. Tudo isso foi sendo misturado ao soul, blues e rhythm and blues que fazem parte da formação musical dos integrantes. O resultado foi uma sonoridade que sempre pareceu antiga e contemporânea ao mesmo tempo, profundamente respeitosa com suas referências, mas carregada da personalidade das ruas de Nova York. A própria banda define sua história como uma mistura de ska, reggae e soul e contabiliza milhares de apresentações desde o início da trajetória.

A discografia construída nesse período ajuda a dimensionar a importância do grupo. Depois de “Better Late Than Never”, lançado em 1996, vieram trabalhos fundamentais como “Red Light”, de 1997, e “The Question”, de 1998. A sequência trouxe “Wasted Days”, em 2001, “Close My Eyes”, em 2003, “Peculiar”, em 2006, “Self Medication”, em 2008, “The Great Rocksteady Swindle”, em 2010, e o álbum autointitulado “The Slackers”, de 2016. Mais recentemente, a banda lançou “Don’t Let The Sunlight Fool Ya”, em 2022, trabalho que colocou o grupo pela primeira vez nas paradas da Billboard norte-americana depois de mais de trinta anos de carreira.

Essa história extensa permite que um show dos Slackers atravesse diferentes fases sem precisar se transformar em uma retrospectiva organizada cronologicamente. Canções como “Watch This”, “Cooking for Tommy”, “I Still Love You”, “Wasted Days”, “Have the Time”, “Sarah”, “Married Girl” e “What Went Wrong” continuam aparecendo com frequência nas apresentações do grupo, ao lado de material mais recente e de versões que refletem a enorme bagagem musical dos integrantes. Nos shows realizados ao longo de 2026, boa parte desses clássicos continuou circulando pelo repertório, mostrando como a banda consegue equilibrar diferentes períodos da própria discografia.

No Cine Joia, porém, mais importante do que contar quantos discos ou quantos anos de carreira estavam sendo celebrados era perceber como essas músicas funcionam quando chegam ao palco. O The Slackers continua essencialmente sendo uma banda feita para tocar ao vivo. Há uma naturalidade impressionante na maneira como os músicos transitam entre ska, reggae e rocksteady, alternando momentos mais acelerados com passagens cadenciadas sem permitir que a energia da pista diminua.

O público rapidamente entendeu a dinâmica. Quando a guitarra assume a marcação característica do ska e os sopros entram no arranjo, a reação é imediata. Quando o ritmo desacelera e o baixo passa a comandar a música, ninguém deixa de dançar. Essa talvez seja uma das principais qualidades do grupo depois de 35 anos de estrada: os Slackers não confundem energia com velocidade.

Vic Ruggiero continua sendo uma das figuras centrais dessa engrenagem. Nos teclados e nos vocais, mantém aquele jeito quase despreocupado de conduzir o espetáculo, enquanto os demais músicos constroem ao redor dele uma sonoridade que parece simples até que se preste atenção em tudo o que está acontecendo. Guitarra, baixo, bateria, órgão e metais trabalham como peças de uma mesma máquina rítmica. Em vez de exibicionismo individual, existe espaço para o conjunto.

É justamente essa característica que transforma uma apresentação dos Slackers em algo diferente de um show convencional de rock. As músicas parecem poder mudar de direção a qualquer instante. Um trecho pode ganhar elementos de dub, outro pode se aproximar do soul e alguns minutos depois a banda está novamente mergulhada em um ska acelerado. Depois de milhares de apresentações, essas transições acontecem com uma naturalidade que dificilmente pode ser ensaiada.

A passagem brasileira também acontece em um momento de renovação do repertório. A turnê de 35 anos veio acompanhada da divulgação do EP “Money is King”, enquanto o grupo segue mantendo vivas músicas espalhadas por toda a sua trajetória. A faixa que dá nome ao novo trabalho, uma releitura de uma composição associada ao calipso de Growling Tiger, também vinha aparecendo no repertório da banda em 2026, reforçando uma característica histórica dos Slackers: olhar para a música jamaicana e caribenha não como algo congelado no passado, mas como matéria-prima que pode ser constantemente reinterpretada.

E poucas coisas representam melhor essa maneira de trabalhar do que a relação dos Slackers com versões de outros artistas.

Em São Paulo, um dos momentos mais saborosos da apresentação aconteceu justamente quando essa lógica encontrou a música brasileira. A banda revisitou “Minha Menina”, composição de Jorge Ben Jor que também ficou marcada pela histórica gravação dos Mutantes. Nas mãos dos Slackers, a música encontra o universo do ska e do rocksteady de forma tão natural que não soa como uma homenagem preparada apenas para agradar ao público brasileiro.

É exatamente o contrário. “Minha Menina” já faz parte do vocabulário musical do grupo.

O balanço brasileiro conversa diretamente com o ritmo jamaicano, enquanto os metais e a marcação do ska dão outra personalidade à composição. No Cine Joia, o reconhecimento foi imediato e a canção funcionou como uma ponte perfeita entre a banda e a plateia. Era uma música brasileira retornando ao Brasil depois de passar pelo filtro musical de músicos de Nova York apaixonados por ska, reggae e soul.

Se essa conexão já havia deixado o clima ainda mais festivo, a entrada de B Negão aumentou a temperatura da apresentação.

A participação do músico brasileiro não pareceu aquela aparição protocolar em que o convidado sobe ao palco, canta alguns versos, agradece e desaparece. B Negão se encaixou naturalmente na proposta do show, justamente porque sua própria trajetória sempre dialogou com reggae, dub, punk, funk e diferentes formas de música urbana.

O encontro ganhou seu melhor significado em “Pressure Drop”, clássico do Toots and the Maytals, uma das bandas fundamentais da história da música jamaicana.

Com B Negão dividindo os vocais com os Slackers, “Pressure Drop” virou uma espécie de resumo da noite. Uma música nascida na Jamaica, interpretada por uma banda de Nova York e cantada em São Paulo ao lado de um dos nomes mais inquietos da música brasileira.

Não era apenas mais um cover colocado no repertório.

Era praticamente uma síntese da própria história do ska e do reggae depois que esses gêneros atravessaram as fronteiras da Jamaica. As músicas viajaram, encontraram outras culturas, foram absorvidas pelo punk, pelo rock, pelo hip hop e pela música brasileira e continuaram se transformando ao longo das décadas.

O mais interessante é que o The Slackers trata todo esse peso histórico com enorme leveza. Não existe aquela postura de banda veterana querendo lembrar ao público o tempo inteiro de sua importância. Os músicos simplesmente tocam. E tocam com a tranquilidade de quem já fez isso milhares de vezes, mas ainda consegue transmitir a sensação de que está se divertindo.

Talvez seja exatamente aí que esteja o segredo dos 35 anos.

O The Slackers conhece profundamente a tradição que ajudou a preservar, mas nunca transformou ska e reggae em peças de museu. Há espaço para reverenciar as raízes e, ao mesmo tempo, colocar nelas blues, soul, punk, rock and roll e qualquer outra influência que possa funcionar naquele momento.

Por isso músicas como “Wasted Days”, “Have the Time”, “Cooking for Tommy”, “Watch This”, “Married Girl”, “Sarah” e tantas outras permanecem vivas dentro do repertório da banda décadas depois de terem sido gravadas. Elas não dependem exclusivamente da memória afetiva de quem acompanha os Slackers desde os anos 1990. Funcionam porque foram construídas sobre algo muito mais básico: ritmo, melodia e a capacidade de colocar uma sala inteira em movimento.

O Cine Joia também é um espaço especialmente favorável para esse tipo de apresentação. A proximidade entre palco e pista elimina parte da distância normalmente existente entre artista e público. Quando a banda encontra o groove certo, a sensação é de que todos estão participando da mesma festa.

E foi exatamente esse o espírito da noite.

O retorno do The Slackers ao Brasil mostrou uma banda absolutamente confortável com a própria história, mas ainda distante da ideia de viver apenas dela. Celebrar 35 anos poderia facilmente virar desculpa para uma turnê puramente nostálgica. No Cine Joia aconteceu o contrário.

 

 
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