Quase uma década depois de sua primeira passagem pelo país, banda de Scranton reencontra um público ainda mais intenso, apresenta o excelente Lost on You e entrega uma noite em que nostalgia e presente caminham lado a lado.
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Poucas bandas conseguem atravessar diferentes fases do emo sem parecerem prisioneiras de uma época específica. O Tigers Jaw talvez seja um dos melhores exemplos disso. Formado em Scranton, na Pensilvânia, o grupo construiu ao longo de duas décadas uma discografia que acompanhou o amadurecimento de seu próprio público, preservando aquela sensação de urgência emocional que marcou seus primeiros trabalhos, mas aprendendo a lidar com ela de maneira cada vez mais sofisticada. No sábado, 10 de outubro, essa trajetória ganhou um novo capítulo no Cine Joia, em São Paulo, no primeiro dos três shows da atual passagem brasileira.
E havia um componente inevitável de reencontro. A última visita do Tigers Jaw ao Brasil havia acontecido em 2017, na época de Spin. Agora, nove anos depois, a banda retornou trazendo na bagagem Lost on You, seu sétimo álbum de estúdio e primeiro disco de inéditas em cinco anos, lançado em março pela Hopeless Records e novamente produzido por Will Yip.
A espera parece ter potencializado tudo. O Cine Joia estava tomado por um público que não se comportava como alguém simplesmente assistindo a um show. Desde os primeiros minutos havia gente cantando, pulando, abrindo rodas e se jogando do palco. A impressão era de que boa parte da plateia tinha guardado energia durante quase uma década exatamente para aquela noite. Uma resenha publicada após a apresentação descreveu stage dives e mosh pits praticamente desde o início e registrou Ben Walsh dizendo que São Paulo estava sendo, até aquele momento, o melhor show daquela etapa da turnê.
O repertório ajudou a estabelecer imediatamente essa relação entre passado e presente. O show começou justamente com duas faixas do novo álbum, “It’s ok” e “Primary Colors”. A escolha é interessante porque reproduz a abertura de Lost on You: primeiro a aparente fragilidade acústica de “It’s ok”, depois a expansão melódica de “Primary Colors”, com Ben Walsh e Brianna Collins dividindo e sobrepondo vozes. É uma pequena síntese daquilo que o Tigers Jaw faz melhor. A banda pode soar intimista durante alguns segundos e, logo depois, transformar a mesma melancolia em uma música enorme.
Em Lost on You, essa dualidade aparece acompanhada de outra preocupação recorrente: o tempo. O disco olha para passado, presente e futuro menos como etapas separadas e mais como diferentes versões de nós mesmos convivendo simultaneamente. É uma ideia que combina especialmente bem com um show como esse. No Cine Joia, músicas escritas quando os integrantes eram muito mais jovens dividiram espaço com composições de 2026 sem provocar qualquer ruptura perceptível.
Logo no começo, entretanto, surgiu um daqueles pequenos acidentes capazes de transformar uma apresentação. Durante “Safe in Your Skin”, cover do Title Fight, uma corda do baixo arrebentou. Em vez de interromper a noite, Ben Walsh e Brianna Collins assumiram a situação e tocaram a música de maneira acústica enquanto o problema era resolvido. O imprevisto acabou produzindo um dos momentos mais especiais do repertório, ainda mais por se tratar de uma canção de outra banda profundamente ligada à mesma geração do emo da Pensilvânia.
Com o equipamento novamente em ordem, “Head is Like a Sinking Stone” recolocou a banda em velocidade de cruzeiro. Um dos principais singles de Lost on You, ela funciona especialmente bem ao vivo porque reúne algumas marcas clássicas do Tigers Jaw: guitarras cristalinas, bateria pulsante e um refrão construído para ser cantado coletivamente. No disco, a música representa justamente esse encontro entre a identidade antiga do grupo e sua versão atual. No palco, essa conexão é ainda mais evidente.
A partir daí, o repertório começou a circular livremente pela discografia. “The Sun” recuperou os primeiros anos da banda, seguida por “Nervous Kids”, do excelente Charmer, e “Between Your Band and the Other Band”, outra visita ao álbum autointitulado. Não era exatamente um show dividido em blocos entre “músicas novas” e “clássicos”. Era mais interessante que isso. As diferentes fases eram embaralhadas, revelando como determinadas características continuam atravessando a composição do grupo.
Ben Walsh e Brianna Collins são fundamentais para isso. Mais do que simplesmente dividir vocais, os dois funcionam como personagens complementares dentro das músicas. Walsh normalmente carrega uma intensidade mais direta, enquanto Collins consegue trazer uma espécie de contraponto melódico e emocional, muitas vezes suavizando uma música até o momento em que ela volta a explodir. É justamente essa dinâmica que impede o Tigers Jaw de cair em uma fórmula puramente nostálgica.
O novo disco voltou ao centro com “Anxious Blade” e “Baptized on a Redwood Drive”. Esta última, mais extensa e contemplativa, ajudou a desacelerar brevemente a apresentação antes de uma das melhores sequências da noite: “Hum” e “June”.
“Hum” é uma daquelas músicas que parecem ter crescido muito além do próprio álbum de origem. Seu começo imediatamente reconhecível foi suficiente para provocar uma reação enorme do público. Quando veio seguida de “June”, ficou evidente como determinadas canções do Tigers Jaw adquiriram uma dimensão diferente com o passar dos anos. São músicas carregadas de lembranças pessoais para quem acompanhou a banda durante a década passada, e o que acontece dentro de uma casa como o Cine Joia deixa de ser apenas execução musical para virar memória compartilhada.
A intensidade continuou com “Never Saw It Coming”, antes de o grupo novamente mergulhar no presente. “BREEZER”, um dos momentos mais atmosféricos de Lost on You, mostrou outro lado da formação atual, com texturas que flertam discretamente com o shoegaze sem abandonar a estrutura melódica característica da banda. A faixa tem sido apontada como um dos momentos em que o álbum mais expande a sonoridade habitual do Tigers Jaw.
Vieram então “Ghost” e “Guardian”, esta última trazendo de volta Spin, antes de “Anniversary”, única representante de I Won’t Care How You Remember Me na apresentação paulista.
Nesse estágio, o show já havia deixado de parecer uma simples turnê de divulgação de disco. O que o Tigers Jaw oferecia era praticamente um percurso por sua própria história, mas sem aquela obrigação burocrática de tocar sucessos em ordem cronológica. A seleção fazia sentido porque passado e presente se misturavam constantemente, exatamente como acontece em Lost on You.
“Staring at Empty Faces” abriu a reta final e preparou terreno para um dos momentos mais emocionais da noite: “Plane vs Tank vs Submarine”. Bastaram os primeiros instantes para o público assumir parte da música. O Cine Joia inteiro parecia cantar junto, transformando uma canção lançada originalmente há quase duas décadas em algo absolutamente presente.
Talvez seja justamente aí que esteja a razão para o Tigers Jaw continuar relevante dentro de uma cena cheia de bandas que acabaram transformadas em peças de nostalgia. As músicas antigas não parecem objetos de museu. Elas continuam funcionando porque falam de inseguranças, relações e dúvidas que não necessariamente desaparecem quando alguém envelhece.
“Chemicals” manteve essa conexão com o disco autointitulado antes de “Lost on You”, faixa que dá nome ao trabalho de 2026, trazer novamente o show para o presente. Funcionou quase como uma resolução de tudo o que havia acontecido até ali: uma banda olhando para sua própria história sem tentar fugir dela, mas também sem depender exclusivamente dela. Restava ainda “I Saw Water”.
Se havia alguma dúvida sobre como terminar aquela noite, ela desapareceu rapidamente. O público abriu uma grande roda no Cine Joia e a música desencadeou uma última explosão de energia. A apresentação terminou às 22h40, cerca de uma hora e vinte e cinco minutos depois de começar, completando um repertório de 21 músicas.
Depois do show, Ben Walsh e Brianna Collins ainda permaneceram no palco para conversar, tirar fotos e autografar itens levados pelos fãs, prolongando por mais alguns minutos aquela sensação de proximidade que havia atravessado toda a apresentação.
O retorno do Tigers Jaw a São Paulo acabou funcionando em duas direções. Para quem viu a banda em 2017, havia inevitavelmente uma camada de memória. Para quem esperava havia anos pela primeira oportunidade, havia a urgência de finalmente transformar músicas ouvidas tantas vezes em algo físico, alto e coletivo.
Setlist – Tigers Jaw no Cine Joia, São Paulo – 10/10/2026
- It’s ok
- Primary Colors
- Safe in Your Skin (Title Fight cover)
- Head is Like a Sinking Stone
- The Sun
- Nervous Kids
- Between Your Band and the Other Band
- Anxious Blade
- Baptized on a Redwood Drive
- Hum
- June
- Never Saw It Coming
- BREEZER
- Ghost
- Guardian
- Anniversary
- Staring at Empty Faces
- Plane vs Tank vs Submarine
- Chemicals
- Lost on You
- I Saw Water






