toe atravessa silêncio, ruído e emoção em retorno marcante ao Brasil
Oito anos depois da primeira passagem pelo Brasil, quarteto japonês retornou a São Paulo celebrando 25 anos de carreira em uma apresentação marcada por silêncio, explosões sonoras, precisão instrumental e um emocionante manifesto contra as guerras.
Texto e Fotos: Flavio Santiago
Existe algo curioso em assistir ao toe ao vivo, durante boa parte do show ninguém precisa explicar exatamente o que está acontecendo. As guitarras conversam, o baixo procura seus próprios caminhos e a bateria parece desmontar e reconstruir cada música em tempo real. Mesmo assim, tudo permanece estranhamente organizado. Foi justamente nesse equilíbrio entre controle e aparente desordem que o quarteto japonês reencontrou o público brasileiro no Cine Joia, em São Paulo.
A espera havia sido longa. A última passagem do grupo pelo país aconteceu em janeiro de 2018, quando o toe desembarcou pela primeira vez no Brasil para duas apresentações no Fabrique Club. Oito anos depois, a banda retornou em outro momento da carreira, agora celebrando 25 anos de trajetória e encontrando uma plateia que não apenas continuava acompanhando sua música, mas parecia conhecer cada pausa, cada mudança de andamento e cada pequena linha de guitarra.
Isso diz muito sobre a relação construída pelo grupo por aqui. O toe nunca foi uma banda de refrões fáceis ou de músicas pensadas para participação coletiva. Ainda assim, no Cine Joia, o público cantarolava riffs instrumentais como se fossem versos conhecidos há anos. Em determinados momentos, centenas de pessoas acompanhavam melodias de guitarra com a mesma naturalidade com que se cantaria o refrão de uma canção pop. Talvez seja justamente aí que esteja parte da força do toe. A banda faz música complexa sem transformar complexidade em exibicionismo.
A apresentação começou com “LONELINESS WILL SHINE”, faixa do mais recente NOW I SEE THE LIGHT, e desde os primeiros minutos ficou claro que o novo disco não ocuparia apenas aquele espaço burocrático reservado ao material recente. As músicas atuais estavam completamente integradas ao restante da história do grupo. Na sequência, “Long Tomorrow” começou a abrir caminho para um show que atravessaria diferentes períodos da carreira sem necessariamente obedecer a uma lógica cronológica.
O toe funciona melhor quando parece estar prestes a perder o controle. Uma guitarra cria uma figura delicada, outra entra por baixo, o baixo acrescenta tensão e então Kashikura Takashi aparece. É difícil assistir ao toe e não passar boa parte do tempo olhando para a bateria. Takashi toca como se estivesse permanentemente brigando com a estrutura das músicas. Pequenos movimentos se transformam em viradas violentas e, poucos segundos depois, tudo volta a desaparecer em silêncio. A bateria não acompanha simplesmente o restante do grupo. Muitas vezes é ela quem decide para onde a música vai.
Esse movimento entre calmaria e explosão atravessou praticamente toda a apresentação. “Kaze to Kioku”, “Kodoku no Hatsumei” e “Chiaroscuro” mostraram diferentes versões dessa mesma linguagem. Há momentos em que as composições parecem quase frágeis, sustentadas por poucas notas, até que uma alteração rítmica transforma completamente aquilo que vinha sendo construído. A plateia entendia perfeitamente essa dinâmica. Quando a banda diminuía, o Cine Joia diminuía junto. Quando explodia, a casa inteira parecia explodir também.
O repertório foi outro dos pontos fortes da noite. Celebrar 25 anos de carreira poderia facilmente resultar em uma apresentação apoiada apenas nos discos mais conhecidos, mas o toe preferiu outro caminho. For Long Tomorrow, de 2009, obviamente ocupou espaço importante, assim como the book about my idle plot on a vague anxiety, de 2005, mas as músicas de NOW I SEE THE LIGHT apareceram em condições de igualdade. Não havia uma separação clara entre “música nova” e “clássico”. Tudo fazia parte da mesma história.
“The Latest Number”, “Because I Hear You” e “Esoteric” ajudaram a costurar essas diferentes fases antes de “Sonny Boy Rhapsody” e “NOW I SEE THE LIGHT” devolverem o show ao presente. Essa mistura evidenciou como a música do toe mudou sem realmente abandonar sua essência. As composições mais recentes parecem mais interessadas em respirar, com mais espaço entre os instrumentos, mais silêncio e uma calma que, ao vivo, funciona quase como preparação para as explosões que aparecem depois. As antigas são mais inquietas, mas colocadas lado a lado todas parecem pertencer ao mesmo universo.
Se a maior parte da noite foi construída sem muitas palavras, justamente por isso o momento em que a banda resolveu falar ganhou outra dimensão. No centro do palco, uma mensagem preparada pelo grupo foi lida em português. O discurso manifestava a oposição do toe às guerras e aos conflitos que continuam acontecendo ao redor do mundo. Mais do que uma declaração contra a violência, a mensagem defendia a arte, a música e as conexões humanas como contraponto a um cenário marcado por divisões.
Em tradução livre, o sentido da mensagem transmitida pela banda era de que o toe se posicionava contra as guerras e os conflitos que afastam as pessoas, defendendo a música e a arte como formas de criar encontros e conexões humanas. O grupo também reforçou a importância de seguir fazendo aquilo em que acredita, sem abandonar suas convicções. O público respondeu de pé, com uma longa ovação.
Yamazaki Hirokazu também apareceu com uma bandeira reunindo símbolos do Brasil e do Japão, tornando aquele momento ainda mais significativo. Era difícil não perceber a beleza da situação. Quatro músicos japoneses estavam no centro de São Paulo diante de centenas de brasileiros que, durante mais de uma hora, praticamente não precisaram compartilhar o mesmo idioma para entender uns aos outros. A música já havia feito esse trabalho antes que o discurso o colocasse em palavras.
Existe um risco constante quando se fala sobre bandas associadas ao math rock: transformar qualquer texto em uma sequência de elogios sobre compassos quebrados, virtuosismo e precisão técnica. Mas isso explica muito pouco sobre o toe. Sim, a banda toca absurdamente bem, mas a técnica nunca parece ser o objetivo final. Mino Takaaki e Yamazaki Hirokazu constroem guitarras que às vezes se completam e em outros momentos parecem competir entre si. Yamane Satoshi segura o baixo quase como uma âncora enquanto tudo ao redor muda de direção. E Takashi permanece no centro, atacando a bateria com uma intensidade que raramente combina com a delicadeza das primeiras notas de cada música.
O resultado é uma música que pode começar quase silenciosa e terminar parecendo grande demais para o palco. Não existe necessidade de um espetáculo visual exagerado nem de preencher cada segundo com som. O toe entende o valor do espaço e, talvez por isso, cada explosão funcione tão bem. A banda consegue oscilar entre delicadeza e ruído, suavidade e impacto, sem que essas mudanças pareçam artificiais. O público acompanhava essa movimentação cantarolando riffs instrumentais e até as poucas linhas vocais que surgiam durante o repertório, numa relação quase hipnótica entre palco e plateia.
“F_A_R” encerrou o primeiro bloco e deixou a sensação de que a noite poderia perfeitamente terminar ali, mas o bis ainda guardava o trecho mais emocional da apresentação. O retorno começou com “Two Moons”, como se a banda diminuísse novamente a intensidade antes dos últimos minutos. Então veio “After Image”, uma das faixas mais queridas de For Long Tomorrow, encontrando um Cine Joia completamente entregue.
Depois de atravessar diferentes momentos dos 25 anos de carreira, reencontrar o Brasil após oito anos e transformar uma casa cheia em uma espécie de organismo coletivo, o toe chegou ao momento da despedida com “Goodbye”. Poucos títulos poderiam ser tão apropriados. A música cresceu lentamente, acumulando camadas e deixando o público suspenso entre a vontade de acompanhar cada nota e a percepção de que o show estava chegando ao fim.
Quando os últimos sons desapareceram, ficou aquela sensação que apenas algumas apresentações conseguem produzir: por alguns segundos, ninguém parece saber exatamente o que fazer depois. O público havia passado cerca de uma hora e meia cantando guitarras, acompanhando silêncios, reagindo a explosões e observando quatro músicos mostrarem que complexidade não precisa significar frieza. Muito pelo contrário.
Na primeira passagem pelo Brasil, em 2018, o toe já havia encontrado um público disposto a recebê-lo como algo muito maior do que uma curiosidade do rock instrumental japonês. Em 2026, essa relação parecia ainda mais forte. O Cine Joia mostrou isso quando centenas de pessoas transformaram riffs instrumentais em coros, mostrou novamente quando o manifesto contra as guerras foi recebido com uma longa ovação e ficou ainda mais evidente nos minutos finais, quando “After Image” e “Goodbye” deixaram a plateia praticamente em transe.
Talvez seja exatamente por isso que, depois de oito anos de distância, bastaram as primeiras notas para que a sensação de reencontro desaparecesse, parecia simplesmente que o toe nunca tinha ido embora.




