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Tom Zé ::: 21/04/26 ::: Sesc Belenzinho
Postado em 22 de abril de 2026 @ 02:59

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Falar de Tom Zé ao vivo é sempre entrar em um território onde o previsível simplesmente não tem vez. Figura central da Tropicália ao lado de nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil, o artista construiu ao longo de décadas uma carreira marcada pela experimentação, ironia e um olhar crítico afiado sobre o cotidiano brasileiro. Desde os anos 60, quando surgiu rompendo padrões estéticos e narrativos na música popular, até sua redescoberta internacional nos anos 90, impulsionada por David Byrne, Tom Zé se mantém como uma entidade criativa em constante movimento, desafiando convenções e reinventando sua própria linguagem.

No palco do Sesc Belenzinho, em São Paulo, essa essência ficou ainda mais evidente. Logo de cara, com “Salve, Belenzinho”, o artista estabeleceu uma conexão direta com o público, quase como um manifesto de abertura que misturava humor, afeto e aquele tom provocador que é sua marca registrada. A sequência com “Menina Jesus” e “A boca da cabeça” mostrou que sua capacidade de brincar com estruturas musicais segue intacta, alternando momentos de aparente simplicidade com arranjos que desafiam qualquer lógica convencional.

Ao longo do show, Tom Zé conduziu a plateia por uma espécie de laboratório sonoro vivo. Em “Curiosidade” e “Nave Maria”, o público se viu imerso em narrativas que transitam entre o absurdo e o cotidiano, enquanto “Happy End” e “Metro Guide” reforçaram sua habilidade de comentar a vida urbana com sarcasmo e inteligência. Já em “Jimmy, renda-se / Moeda falsa” e “Aviso aos passageiros”, a crítica social ganhou ainda mais corpo, sempre embalada por arranjos criativos e performances quase teatrais.

Um dos momentos mais emblemáticos veio com “Não urine no chão” e “Jingle do disco”, quando o artista escancarou seu lado mais irreverente, arrancando risadas e ao mesmo tempo fazendo o público refletir sobre as pequenas contradições do dia a dia. “Tô” e “Hein?” funcionaram como sínteses perfeitas de seu estilo fragmentado e provocador, enquanto “Menina, amanhã de manhã (o sonho voltou)” trouxe um respiro mais melódico sem perder a essência experimental.

A homenagem com “2001”, clássico dos Os Mutantes, foi recebida com entusiasmo, conectando gerações e reforçando o legado tropicalista presente em toda a apresentação. Já em “Augusta, Angélica e Consolação”, Tom Zé transformou a geografia paulistana em poesia sonora, criando uma identificação imediata com o público local.

Na reta final, “Politicar” trouxe à tona seu viés mais crítico, mostrando que, mesmo após tantos anos de carreira, sua arte continua profundamente conectada com o presente. O encerramento com a reprise de “Salve, Belenzinho” fechou o ciclo de forma simbólica, como se o show fosse um grande experimento circular onde começo e fim se encontram.

Assistir a Tom Zé no Sesc Belenzinho não é apenas ver um show, é participar de uma experiência artística única, onde música, performance e pensamento crítico se misturam de maneira orgânica. Em tempos de fórmulas prontas, ele segue sendo um ponto fora da curva, um artista que transforma o palco em um espaço de invenção constante e que prova, mais uma vez, que sua obra continua tão relevante quanto inquieta.

 
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