Texto e Fotos: Flavio Santiago
Em noite dedicada aos dez anos de Stage Four, banda californiana reencontra o público brasileiro em apresentação visceral, enquanto franceses do Celeste fazem estreia sombria e impactante no país
Existem discos que envelhecem e existem discos que continuam acontecendo. Stage Four, lançado pelo Touché Amoré em 2016, claramente pertence ao segundo grupo. Dez anos depois, as músicas escritas por Jeremy Bolm durante um dos períodos mais dolorosos de sua vida continuam encontrando novos significados cada vez que são cantadas por centenas de pessoas. No sábado, 12 de setembro, no Cine Joia, em São Paulo, essa relação entre memória, ausência e catarse ganhou novamente forma física.
A passagem teve caráter especial. O Touché Amoré retornava à cidade pouco mais de um ano depois de sua apresentação no City Lights, desta vez trazendo a turnê comemorativa de uma década de Stage Four e executando o disco integralmente. São Paulo recebeu a única apresentação sul-americana desta etapa da celebração, em uma noite que ainda marcou a estreia brasileira dos franceses do Celeste e contou com as bandas nacionais Sodade e Dialética.
Antes mesmo da atração principal, porém, o Cine Joia já havia atravessado diferentes níveis de peso e tensão. Sodade abriu os trabalhos mergulhando em uma combinação de post-black metal, shoegaze e atmosferas densas.
Na sequência, a Dialética trouxe uma abordagem mais ligada ao screamo e ao post-hardcore, mesmo enfrentando uma situação complicada nos bastidores, que obrigou a banda a tocar com um baterista substituto aprendido o repertório praticamente às vésperas da apresentação.
O set precisou ser encurtado, mas manteve a intensidade e aproximou progressivamente o público do palco.
Foi com o Celeste, entretanto, que a noite mudou completamente de aparência.
Celebrando duas décadas de carreira e finalmente fazendo sua estreia no Brasil, o quarteto francês praticamente apagou o palco para construir o próprio universo.
Em vez de iluminação convencional, silhuetas e focos vermelhos presos à cabeça dos músicos atravessavam a escuridão, criando a sensação de assistir a alguma espécie de ritual industrial. Pouca conversa, poucos elementos externos e nenhuma tentativa de tornar a experiência confortável.
Musicalmente, o Celeste também representou a parte mais brutal da programação. Riffs pesados, vocais dilacerados, bateria agressiva e uma massa sonora que transita por sludge, post-metal, hardcore e black metal fizeram o Cine Joia parecer menor durante aqueles minutos. A distância sonora em relação ao Touché Amoré poderia parecer grande no papel, mas funcionou justamente porque as duas bandas trabalham a intensidade de maneiras diferentes. O Celeste sufoca. O Touché Amoré explode.
Depois daquela atmosfera quase claustrofóbica, a entrada do Touché Amoré produziu um contraste imediato.
“What Sarah Said”, do Death Cab for Cutie, apareceu nos alto-falantes antes de Jeremy Bolm, Clayton Stevens, Nick Steinhardt, Tyler Kirby e Elliot Babin ocuparem o palco. Pouco depois, os primeiros acordes de “Flowers and You” dispararam aquilo que seria praticamente uma hora de contato permanente entre banda e plateia.
Se Stage Four é um disco marcado pela morte, pelo arrependimento e pelas perguntas que nunca recebem resposta, sua tradução ao vivo está longe de ser silenciosa.
A pista rapidamente se transformou. Rodas começaram a aparecer, fãs subiam ao palco e se lançavam de volta para a multidão, enquanto Bolm frequentemente dividia o microfone com quem conseguia chegar perto o suficiente. Não existia distância segura entre banda e público. Em músicas como “New Halloween”, “Rapture”, “Displacement” e “Palm Dreams”, aquilo que começou como relato autobiográfico há uma década já parecia pertencer coletivamente a todo mundo dentro da casa.
É justamente aí que Stage Four continua sendo um disco tão particular dentro da discografia do Touché Amoré.
Jeremy Bolm escreveu aquelas músicas após perder a mãe para um câncer. Em vez de transformar o luto em metáforas abstratas, falou diretamente sobre telefonemas, lembranças, culpa, ausência e sobre a dificuldade de aceitar que certos momentos não podem ser recuperados. O título do álbum carrega inclusive a referência ao estágio quatro da doença.
O show em São Paulo também esteve associado à National Breast Cancer Foundation, instituição dedicada à conscientização e ao apoio relacionado ao câncer de mama.
Mas dez anos mudam a relação de uma pessoa com uma música.
Por isso talvez o elemento mais interessante da apresentação tenha sido observar Bolm sorrindo, conversando e parecendo genuinamente feliz enquanto interpretava algumas das letras mais dolorosas que já escreveu. A contradição não enfraquece o material. Faz justamente o contrário. Mostra que aquelas músicas sobreviveram ao momento que as criou.
Em certo momento, Bolm contou que a intenção daquela turnê comemorativa era levar Stage Four a alguns dos lugares favoritos da banda no mundo e colocou São Paulo entre eles. Também agradeceu às pessoas que viajaram para acompanhar aquela apresentação, única na América do Sul dentro da celebração.
O público respondeu da maneira esperada.
“Benediction”, “Eight Seconds”, “Softer Spoken”, “Posing Holy” e “Water Damage” mantiveram a intensidade, antes de “Skyscraper” encerrar a execução integral do álbum. Depois disso, entretanto, o show deixou de olhar exclusivamente para 2016.
O bloco final funcionou quase como uma pequena viagem pela história do grupo. “Gather” abriu espaço para “~” e “Pathfinder”, recuperando Parting the Sea Between Brightness and Me. “Hal Ashby” trouxe o Touché Amoré atual de Spiral in a Straight Line, enquanto “Reminders” e “Come Heroine” lembraram Lament. “Nobody’s” recolocou o repertório recente em evidência antes de uma mudança não planejada adicionar “Green” ao set após o pedido de um fã. Para fechar, “Honest Sleep”, faixa do primeiro álbum, …To the Beat of a Dead Horse, apareceu no lugar de “Limelight”.
Foi uma maneira particularmente eficiente de terminar uma apresentação construída ao redor de um único disco. Depois de revisitar Stage Four do começo ao fim, o Touché Amoré mostrou que aquela obra ocupa um lugar central em sua história, mas não congelou a banda naquele momento.
Mais significativo ainda foi o gesto próximo do encerramento, quando o grupo pediu que as luzes fossem aumentadas para conseguir enxergar melhor a plateia. Depois de uma noite inteira em que centenas de pessoas devolveram as palavras de Bolm aos gritos, fazer questão de olhar para aqueles rostos parecia completar o ciclo.
Uma década atrás, Stage Four nasceu de uma experiência que Jeremy Bolm provavelmente gostaria de nunca ter vivido. Em São Paulo, aquelas mesmas músicas não apagaram a dor nem tentaram transformá-la em algo bonito. Elas simplesmente mostraram o que pode acontecer quando uma experiência extremamente íntima encontra outras pessoas que reconhecem alguma parte de si dentro dela.






