Texto e Fotos : Flavio Santiago
No sábado de 29 de novembro de 2025, o Cine Joia, já consagrado pela cena alternativa paulistana, virou palco de um encontro que muitos consideravam improvável: duas lendas vivas do punk californiano dominando a noite com intensidade e história. A casa — localizada no coração da Liberdade recebeu um público tão diverso quanto aquele que, em outras épocas, escreveu capítulos do próprio movimento punk em São Paulo.
A noite começou com a banda nacional Treva, cujo som transita entre punk rock, folk e elementos de blues, abrindo portas com vigor e uma entrega visceral que aqueceria a plateia para o que estava por vir. O trio mostrou energia e identidade própria, como se desafiasse o público a não apenas escutar, mas sentir a música um prelúdio perfeito para uma noite que prometia ser intensa.
Se os Adolescents representam a face mais melódica do punk californiano, o T.S.O.L. (True Sounds of Liberty) sempre foi o seu espelho mais sombrio. Formada também em 1980, na cidade de Huntington Beach, a banda rapidamente se destacou por incorporar elementos de hardcore, punk rock, deathrock e até pós-punk, criando uma sonoridade mais densa e atmosférica.
Com letras que abordam temas como niilismo, crítica social, morte e decadência urbana, o T.S.O.L. construiu uma identidade única dentro da cena. A presença de Jack Grisham como vocalista figura controversa, intensa e carismática — sempre deu ao grupo um ar quase performático. Ao longo das décadas, a banda passou por transformações sonoras, mas nunca perdeu o tom desafiador e desconfortável que a tornou referência.
T.S.O.L. trouxe os riffs mais densos e a postura de palco de Jack Grisham criaram um clima quase ritualístico. O show foi menos festivo e mais confrontacional, como se a banda quisesse lembrar que o punk também é desconforto, questionamento e tensão. As músicas soaram cruas, intensas e, em muitos momentos, ameaçadoras exatamente como devem ser, com letras que abordam temas como niilismo, crítica social, morte e decadência urbana, o T.S.O.L. construiu uma identidade única dentro da cena.
A presença de Jack Grisham como vocalista — figura controversa, intensa e carismática — sempre deu ao grupo um ar quase performático. Ao longo das décadas, a banda passou por transformações sonoras, mas nunca perdeu o tom desafiador e desconfortável que a tornou referência.
Mas a noite não terminou ali. Com a adrenalina ainda alta, os Adolescents tomaram o comando do palco. Formados em 1980, em Fullerton, Califórnia, os Adolescents surgiram em um momento crucial do hardcore norte-americano. Diferentemente da agressividade quase militar de algumas bandas da época, o grupo apostou em melodias mais abertas, refrões fortes e uma estética que flertava com o surf punk, sem perder a urgência juvenil. O álbum de estreia homônimo, lançado em 1981, tornou-se um clássico instantâneo e ajudou a definir o que mais tarde seria reconhecido como hardcore melódico.
Com um som rápido, melódico e repleto de força, a banda trouxe à tona clássicos que ecoaram como hinos para os fãs presentes. Foi uma sequência de refrões gritados em uníssono, guitarras afiadas e uma energia que ignorou qualquer limite etário entre o público — jovens punks, veteranos da cena e curiosos unidos num só coro.
O que se viu no Cine Joia naquela noite foi mais do que um simples show: foi uma celebração de tradição, resistência e comunhão musical. Entre riffs que atravessam gerações e performances que pareciam desafiar o tempo, ficou claro que tanto T.S.O.L. quanto Adolescents não estão apenas relembrando o passado ainda vivem plenamente o presente do punk.
No fim, o público deixou o Cine Joia com aquela sensação rara de ter testemunhado algo maior que um concerto. Foi uma noite que reafirmou o poder do punk: direto, visceral e profundamente humano.






