Texto e Fotos: Flavio Santiago
Yo La Tengo no Cine Joia: a noite em que o barulho resolveu tirar folga
Há bandas que parecem operar em duas velocidades. O Yo La Tengo é uma delas. no domingo, no Balaclava Fest, eles vieram no modo furadeira industrial: guitarras dilacerando o ar, microfonia, camadas de ruído, Ira Kaplan possuído pelo espírito de um cientista maluco alimentado por pedais fuzz. Na segunda feira , no Cine Joia, era como se tivessem acordado com aquela ressaca emocional que só músicos veteranos têm e resolvido mostrar a São Paulo sua versão mais calma e serena.
O show acústico e intimista não parecia exatamente uma continuação do dia anterior; parecia uma espécie de universo paralelo. Onde estava a avalanche decibélica? Onde estavam os solos intermináveis, os improvisos em forma de terremoto? Nada disso apareceu no palco do Joia. E talvez esse tenha sido justamente o encanto.
A escolha de abrir com “Blitzkrieg Bop” instrumental sim, um Ramones sem a parte dos “hey ho, let’s go” foi o tipo de humor sutil que o Yo La Tengo gosta de entregar. Era quase um: “Calma, galera, hoje não vai ter porrada sonora, mas a gente ainda lembra de onde veio.”
E ali já se percebia o espírito do show: um passeio por referências, histórias de bastidores e canções que só sobrevivem mesmo quando tocadas com calma e atenção.
Quando “From a Motel 6” e “Season of the Shark” entraram em cena, ficou claro que o Cine Joia tinha virado uma espécie de sala de estar ampliada. O público, que 24 horas antes estava pulando e se deixando atropelar pelo noise, agora assistia ao trio em silêncio quase monástico.
E eles entregavam versões tão delicadas que dava para sentir a respiração da plateia.
“Nowhere Near” veio como um daqueles momentos em que você pensa: “Tá aí, é por isso que eu gosto dessa banda.” A música já era triste no disco; ao vivo, acústica, virou uma espécie de desabafo coletivo.
O Yo La Tengo nunca foi fã de previsibilidade. E no Joia eles tiraram da manga “The Way Some People Die”, tocada pela primeira vez ao vivo. A reação foi aquela típica dos fãs de YLT: um “meu deus!” silencioso, discreto, mas sentido.
E vieram os covers — porque eles tratam covers como extensão natural da própria discografia: “Yellow Sarong” ganhou cara de folk esquisito, “A Message to Pretty” soou como Love filtrado por um disco de 78 rotações esquecido no sótão, “Right Side of My Mind”, originalmente um hardcore raivoso, virou quase uma crônica de vizinhança, “Griselda” manteve aquele ar de música de rua, torta e irresistível.
O trio parecia confortável, quase íntimo demais como se estivesse testando ideias em casa e tivesse deixado o público entrar pela porta da frente.
A graça do Yo La Tengo no modo acústico é perceber como cada integrante carrega um pedaço do caráter da banda. Georgia, com seu canto quase sussurrado, transforma qualquer música num abraço. “Our Way to Fall” ficou tão límpida que parecia que ela estava cantando diretamente no ouvido de cada pessoa do salão.
E quando chegaram “Damage”, “Black Flowers” e “Last Days of Disco”, o Cine Joia virou território de contemplação. Não havia pressa, não havia a força do volume — só espaço.
Até mesmo “Pass the Hatchet, I Think I’m Goodkind”, que costuma ser um ataque sonoro, virou uma peça hipnótica, um mantra minimalista.
O bis foi quase um aceno: “Center of Gravity”, “Count Me In” e “My Little Corner of the World” essa última já tradicional, mas sempre emocional. Georgia transformou o Cine Joia num lugar pequeno, familiar, quase aconchegante. Muita gente saiu ali pensando que tinha testemunhado alguma coisa realmente rara: um Yo La Tengo que não aparece todo dia.
Em um fim de semana, São Paulo recebeu duas versões do Yo La Tengo. Uma barulhenta, elétrica, descontrolada. Outra suave, cuidadosa, construída no detalhe.
E o mais incrível? Ambas são absolutamente autênticas.
O Yo La Tengo pode ser caos e pode ser silêncio. Pode ser muralha de ruído e pode ser canção de ninar torta. Pode ser tempestade e pode ser suspiro.
No Cine Joia, eles escolheram o suspiro.
E foi lindo.
Setlist
Blitzkrieg Bop (Ramones cover) (Instrumental)
From a Motel 6
Season of the Shark
Nowhere Near
PThe Way Some People Die (Live debut)
Tom Courtenay
Yellow Sarong (The Scene Is Now cover)
Satellite
I Want to Be With You (The Bonzo Dog Doo-Dah Band cover)
Last Days of Disco
Right Side of My Mind (Angry Samoans cover)
Damage
Black Flowers
A Message to Pretty (Love cover)
Griselda (The Holy Modal Rounders cover)
Pass the Hatchet, I Think I’m Goodkind
Moby Octopad
Our Way to Fall
Encore:
Center of Gravity
Count Me In (Gary Lewis & the Playboys cover)
My Little Corner of the World (Anita Bryant cover)






