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Zakk Sabbath / Dark Chapel ::: 11/10/26 ::: Carioca Club
Postado em 03 de novembro de 2026 @ 12:22

Texto e Fotos: Flavio Santiago

Existe uma diferença considerável entre tocar músicas do Black Sabbath e ter algum direito moral de mexer nelas. Zakk Wylde está no segundo grupo. O sujeito passou boa parte da vida ao lado de Ozzy Osbourne, aprendeu a transformar guitarra em arma de destruição em massa e nunca escondeu que Tony Iommi é uma espécie de pedra fundamental de tudo o que ele faz. Portanto, quando sobe ao palco com o Zakk Sabbath, a coisa não tem exatamente cheiro de banda cover de boteco. É mais próximo de um fã privilegiado, com pedigree suficiente para entrar na sala de máquinas da história do heavy metal e aumentar todos os botões.

Foi isso que aconteceu em um Carioca Club completamente lotado em São Paulo. Casa cheia, calor, gente espremida e um público que parecia não estar interessado em sutileza. Queriam riffs. Queriam Sabbath. Queriam ouvir aquelas músicas num volume capaz de deslocar alguns órgãos internos. Zakk Wylde entregou exatamente isso.

A noite começou com o Dark Chapel, projeto liderado por Dario Lorina, companheiro de Zakk no Black Label Society há mais de uma década. Ao lado de Dylan Dyce, Mike Leon e Jeremiah Walker, Lorina aproveitou a oportunidade para mostrar que existe vida própria longe da segunda guitarra do BLS. O grupo lançou em 2025 o álbum de estreia Spirit in the Glass e apresentou no Carioca Club uma combinação de hard rock, blues, grunge e metal carregado de riffs.

“Afterglow” abriu os trabalhos, seguida por músicas como “Hollow Smile”, “Sign of Life”, “Hit of Your Love” e “All That Remains”. A versão de “Ain’t No Sunshine”, de Bill Withers, talvez tenha sido a escolha mais inesperada do repertório, antes de “Burns the Flame” encerrar uma apresentação curta, porém eficiente.

O Dark Chapel tinha ainda uma função ingrata. Diante de uma casa cheia desde cedo, boa parte da plateia obviamente aguardava pelo homem que apareceria em seguida.

Ainda assim, Lorina e companhia conseguiram escapar da condição de simples banda de abertura. Seu som possui peso suficiente para conversar com aquele público, mas tem uma identidade própria, principalmente quando o guitarrista assume também vocais e piano.

Quando o Zakk Sabbath finalmente apareceu, qualquer resquício de aquecimento terminou.“Supernaut” foi o cartão de visitas perfeito. O riff de Tony Iommi permanece um dos grandes monumentos da guitarra pesada e, nas mãos de Zakk Wylde, ganha outro tipo de musculatura. Zakk não tenta desaparecer atrás das composições. Seus harmônicos, vibratos exagerados e solos extensos continuam ali. É Sabbath, evidentemente, mas passado pelo filtro de alguém que passou décadas construindo uma linguagem própria.

Essa talvez seja justamente a grande graça do projeto.

Bandas tributo normalmente vivem do grau de fidelidade que conseguem alcançar. O Zakk Sabbath funciona pela lógica contrária. Ninguém precisa de Zakk Wylde tentando soar exatamente como Tony Iommi ou cantar como Ozzy. O interesse está em ouvir essas músicas interpretadas por alguém que conhece aquele universo de dentro e possui personalidade suficiente para mexer nelas sem apagar sua essência.

“Snowblind” veio logo depois, pesada e arrastada, seguida por “Under the Sun/Every Day Comes and Goes”. A sequência inicial já deixava evidente outra característica interessante do repertório: em vez de montar simplesmente um greatest hits, Zakk mergulhou fundo nos primeiros anos do Sabbath.

Vieram ainda “Tomorrow’s Dream” e uma longa passagem por “Wicked World”, antes de “Fairies Wear Boots” provocar uma das primeiras grandes explosões coletivas da noite. Era possível perceber que aquela não era uma plateia formada apenas por admiradores de Zakk Wylde. Eram fãs de Black Sabbath esperando cada riff como quem reconhece as primeiras palavras de uma velha história.

“Into the Void” provavelmente resumiu melhor esse encontro.

Poucos riffs representam tão bem a sensação física criada pelo Black Sabbath quanto aquele início lento, gigantesco e ameaçador. No Carioca Club, ele parecia ainda maior. Baixo, bateria e guitarra ocupavam praticamente todo o espaço disponível enquanto Zakk alternava entre respeito à estrutura original e sua conhecida necessidade de fazer a guitarra falar um pouco mais.

O trio formado por Zakk Wylde, John “JD” DeServio e Jeff Fabb entregou uma versão de Sabbath menos sombria e mais explosiva, quase como se aquelas músicas tivessem passado pela academia do Black Label Society.

Mas existia uma camada emocional impossível de ignorar.

A relação entre Zakk Wylde e Ozzy Osbourne ultrapassou por muito tempo a lógica convencional entre vocalista e guitarrista. Wylde entrou para a banda de Ozzy ainda jovem e construiu ao seu lado uma parceria de décadas. Por isso, nesta passagem do Zakk Sabbath, o repertório ganhou inevitavelmente contornos de homenagem. Durante a apresentação, Zakk chegou a puxar o nome de Ozzy junto ao público, apontando para o alto enquanto o Carioca Club respondia em coro.

Não parecia um recurso dramático programado para o espetáculo. Havia algo genuinamente pessoal naquele gesto.

“Children of the Grave” transformou a pista em uma massa de vozes e braços levantados. Se até aquele momento o show já caminhava sobre clássicos incontestáveis, dali em diante entrou definitivamente em território de celebração.

“Lord of This World” e “Hand of Doom” reforçaram como o projeto consegue ir além dos títulos mais óbvios. Para fãs sedentos por Sabbath, havia algo especialmente prazeroso em ouvir um repertório tão concentrado no período inicial da banda e executado com volume e agressividade quase excessivos.

Então veio “N.I.B.”.

Além de outro dos riffs mais reconhecíveis da história do gênero, a música ganhou um elemento visual inesperado, com grandes bolas infláveis roxas circulando sobre o público enquanto a banda tocava. Por alguns minutos, o ambiente pesado do show assumiu um caráter quase festivo.

Era a preparação para a conclusão óbvia e necessária.

“War Pigs” encerrou a noite.

Há músicas que um artista toca para o público. “War Pigs” pertence ao grupo das que o público praticamente toma da banda. Foi exatamente o que aconteceu no Carioca Club. A plateia acompanhou versos, riffs e mudanças de andamento, formando um coro que transformou os minutos finais do show em comunhão coletiva.

Não havia necessidade de pirotecnia, discursos gigantes ou alguma surpresa guardada para o final. O repertório já bastava.

E talvez seja esse o ponto central do Zakk Sabbath.

Zakk Wylde não precisa provar sua importância como guitarrista. Sua trajetória com Ozzy, Black Label Society e, mais recentemente, Pantera já lhe garante espaço próprio na história do metal. O que esse projeto permite é vê-lo assumir outra função: a de guardião de uma música que também ajudou a moldá-lo.

E ele faz isso sem colocar as composições em uma redoma.

O Sabbath do Zakk é mais barulhento, às vezes mais excessivo e obviamente carregado de solos. Há momentos em que seu DNA aparece tanto quanto o de Iommi. Mas esperar qualquer coisa diferente seria perder justamente a graça do encontro.

Diante de um Carioca Club sold out, o que se viu não foi uma simples banda cover executando clássicos de mais de cinquenta anos. Foi uma sala inteira reafirmando o tamanho dessas músicas.

De “Supernaut” a “War Pigs”, riffs criados décadas atrás continuaram provocando exatamente a reação que sempre provocaram: cabeças balançando, punhos levantados e centenas de pessoas cantando como se aquelas músicas ainda fossem novas.

Zakk Wylde apenas colocou mais volume nisso.

E para os fãs sedentos por Black Sabbath que lotaram o Carioca Club, foi mais do que suficiente.

Setlist – Zakk Sabbath

Supernaut
Snowblind
Under the Sun / Every Day Comes and Goes
Tomorrow’s Dream
Wicked World
Fairies Wear Boots
Into the Void
Children of the Grave
Lord of This World
Hand of Doom
N.I.B.
War Pigs

 
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