ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com

Helmet ::: 30/04/25 ::: Carioca Club
Postado em 08 de maio de 2025 @ 01:58

Texto: Vagner Mastropaulo

Fotos: Flavio Santiago

Page Hamilton é um homem de palavra!

 

“Vamos tocar Betty na íntegra, do começo ao fim, sem palavras. Quero dizer, sem falar nada. Vamos apenas tocar o álbum e depois faremos músicas de todos os outros álbuns”. A declaração foi dada pelo próprio líder do Helmet em entrevista a Flávio Santiago para este site em 22/04 e postada [https://onstage.mus.br/website/entrevista-helmet] dois dias depois. Só não dá para cravar que ele tenha cumprido tudo 100% à risca porque não houve músicas deSize Matters (04),Seeing Eye Dog (10) e DeadTo The World (16). Antes de eles detonarem, porém, haveria duas aberturas.

 

A primeira delas, o Treva, de São Paulo, formado por Felipe Ribeiro (vocal/guitarra), Chris Wiesen (guitarra), Eduardo Moratori (baixo) e Pedro Hernandes (bateria), pautou seu ótimo set autoral 100% em português de trinta e quatro minutos em canções de seu début, Em Própria Razão (23). Pontualmente às 19:50, conforme prometido, vieram ao palco ao som de Meu Sofrer (Queixumes), de Gastão Formenti, utilizada como intro e em sonoridade de LP por se tratar de uma gravação de 1930.A rigor, a noite foi aberta mesmo por Novo Amanhã e Onde Morre O Sol, até Felipe dar um importante recado:

“E aí, São Paulo? Como estamos? Tudo bem? Olha só, essa banda começou durante a pandemia, inclusive, daí vem o nome Treva, de um período bem difícil. E essa música agora fizemos durante um período complicado: muita gente sem saber como é que seria o futuro; muita gente doente; outras pessoas sofrendo. Mas é o seguinte: queria dedicar essa música, em primeiro lugar, a todo mundo que perdeu alguém durante a pandemia, alguma pessoa próxima. Além disso, queria agradecer a todas as pessoas que estão aqui hoje, a todos que sobreviveram e a todos que continuam firmes e fortes e aproveitaram esse momento muito ruim para encontrar um novo caminho e continuar seguindo”.

Ele concluiu: “Essa música se chama Memórias & Reclusão”, ainda mais acessível do que as anteriores, no melhor sentido do termo.Por Chance, Por Sangue! voltou a acelerar a festa e a inédita Recomeço manteve a pegada. As duas últimas foram Renasce Em Dor e O Passado Que Se Teme não ficou claro se se tratava de uma outro ou mero fruto da discotecagem, mas, por falta de um termo melhor, o “som da despedida” foi People GetUp And Drive YourFunky Soul, de James Brown.

Este repórter pode estar redondamente errado, mas fazia tempo que não via um opening act tão urbano. E o caráter paulistano pode ser conferido na arte do “primeiro take”, por assim dizer, do vídeo oficial de Memórias & Reclusão e em clipes como os de Onde Morre O Sol e XXVII, esta não tocada, com idéia reforçada pela temática em preto e branco na captação de imagens.Partiram com o patrimônio mais sólido que uma primeira banda pode conquistar: o respeito geral!

 

Sete minutos antes do horário divulgado de 20:50, o Debrix de Felippo Teixeira (vocal), Diego Sanctus e FriggiMad Beats (guitarras), Alisson Magno (baixo) e Abel Savoldi (bateria) veio com tudo com Stray.Com o EP Tales From The RabbitHole (24) no catálogo, curiosamente o quinteto optou por deixar de lado duas de suas faixas:Roadflow e RunningFeet. Incluíram, sim, o single Push It!,do mesmo ano, segunda do repertório, aliás, corajosamente apostaram em conteúdo inédito.

Felippo quebraria o gelo: “Valeu! E aí? Todo mundo ansioso pelo Helmet? Vamos fazer um som em português que a gente acabou de fazer e vamos estrear hoje. Então vamos ver aí!” – Brisa De Espelho, aprovada, diga-se de passagem. EPicture Pose foi descrita pelo frontman como um som para “quem gosta de pagar de bacana”.

Thunderstorm tornou a arrepiar a festa, seguida por Turn The Page e Born Beast, fortemente puxada pelo baixo. E o que estava legal se tornou ainda mais divertido com a ótima Perigo!,assim anunciada pelo vocalista: “Todo mundo já viveu na balada aí, na noite. Todo mundo já caiu em algum conto, seja homem ou mulher. Acho que todo mundo já tomou um tombo aí. Vamaê!”.

Caminhando para o final, Nada Pra Falar trouxe um trampo sofisticado de bateria e a saideira foi Bullseye, também a última do mencionado EP do grupo de São José dos Campos. A julgar pela amostragem do material novo espalhado ao longo de trinta e sete minutos, vem coisa boa por aí em breve e, quiçá, misturando composições em português e inglês.

Com o set encerrado sem outro, ainda tentávamos interpretar o som robusto do Debrix, com um pouco de tudo ali no meio, super bem batido: metal, funk (o do bom, não o do estado vizinho), hardcore, hard rock… Proposta direta, com composições mais “soco na cara” e falas menos extensas nos intervalos, sem desperdício de tempo.Grata surpresa!

Perfeccionista que é, evidentemente Page Hamilton faria reparos finais no palco já com as cortinas abertas pontualmente às 22:00, de acordo com o anunciado. Dois ligeiros minutos foram suficientes para os primeiros ruídos de Wilma’sRainbow abrirem o set do Helmet com o volume do vocal um pouco baixo, a princípio, inaugurando o disco prometido, Betty (94),com seusegundo maior hit e nele ocorrendo nada além do esperado numa pista lotada: cantoria e agitação para a faixa estendida em função de um alongado solo de guitarra do anfitrião em seu final.

Bastou uma música, o jogo estava ganho e a prova cabal de que a coletivo coeso que vimos superar problemas técnicos ao fechar a terceira e última noite do Oxigênio Festival no Aeroclube Campo de Marte em novembro/22 [https://onstage.mus.br/website/helmet-oxigenio-festival-aeroclube-campo-de-marte-20-11-22]não era por acaso, mas sim conseqüência natural de muitos ensaios ao constatarmos o que foi entregue em I Knowe Biscuits For Smut.

Milquetoast merece um parágrafo à parte, pois a precisão na linha “começa-pára-recomeça” de seus riffs e batidas martelantes foi tamanha que ela deixou boquiaberto um fã veterano certamente assistindo ao quarteto pela primeira vez e posicionado ao lado deste escriba: “Como diria o ‘filósofo’ Bruno Henrique, do Flamengo, isso aí é ‘outro patamar’. Deveriam fazer todo mundo sair, pagar outro ingresso e voltar”. Exageros à parte, com dezoito minutos no relógio, dava para cravar já ter sido o ponto alto da noite.

Tic, Rollo, Street Crab… As pauladas apenas se sucediam e um entusiasmado fã questionava um amigo: “Isso está mesmo acontecendo?”, tamanha a energia proveniente do palco. E falando sério, quando na vida você suporia ouvir ao vivo pedradas como Clean,Vaccinatione a viajante instrumental BeautifulLove? E as reações de incredulidade permaneciam até em músicas mais conhecidas, como Speechless, uma espécie de irmã caçula de Milquetoast, se você reparar bem.

Como não poderia deixar de ser, veio outro combo do tipo: “Quando na vida você sonharia em ouvi-las?”:The Silver Hawaiian, Overrated e Sam Hell. Evidentemente sempre há algum pentelho e um lado deste redator brincava: “Faltaram Pariah, Flushings e Thick”, respectivamente a bonus track da prensagem japonesa e o par de faixas extras da reedição digital de 2010. Na boa, você é um dos afortunados a ter estas cópias? Sorte a sua… No mais, para a imensa maioria dos presentes, o disco acabava ali mesmo e não faltava coisa alguma dele.

Dependendo de sua idade e, portanto, da maneira com a qual você se relaciona com música, o que acabara de acontecer foi sem sentido algum… E aqui não cabem achismos de tiozão defendendo que tudo era melhor em 1994, mas tratam-se de simples constatações. Afinal de contas, “lá atrás”, para você conseguir escutar Milquetoast, por exemplo, o grande sucesso do álbum, precisava torcer para que ela tocasse em alguma das poucas rádios rock existentes para, se tivesse recursos, gravá-la numa fita cassete garantindo futuras audições independentes.

Outras alternativas eram: rezar para que a direção do vento favorecesse sua antena UHF para tentar ver seu clipe na MTV em seu auge e, caso pudesse, registrá-lo em fita de vídeo-cassete; ou fazer um pacto com o bolso do diabo para que lançassem o CD em versão nacional, pois a importada era fora de cogitação. Já comprar a tal versão japonesa com a citada Pariah de bonus track então era sonho inatingível ou “coisa de playboy”. Hoje em dia, alguns cliques em qualquer Spotify ou YouTube da vida resolvem o problema…

Com a pouca oferta, você se agarrava a tudo que o álbum poderia te oferecer quanto tinha-o em mãos, ou seja: escutava-o de cabo a rabo por repetidas vezes devorando cada detalhe da arte de capa ou linha escrita no encarte, transformando o simples ato de possuir um disco num deleite viajante. Daí praticamente o fetiche de tantos quarentões marcarem presença no Carioca Club, pois era necessário ter, chutando baixo, uns dez anos em 1994 e algum amigo, irmão ou primo mais velho, super gente boa e de bom gosto para te apresentar ao CD,mais raro ainda e autêntica relíquia verde limão na caixinha transparente!Definitivamente, eram outros tempos… Hoje mal há paciência para se conferir faixas inteiras em playlists eternas e inúteis em plataformas disponíveis a rodo.

Fechada a digressão, Page Hamiltonfinalmente daria o ar da graça: “Muito obrigado! Esse foi Betty, caso não saibam, por inteiro. Estão prontos? Saúde! Obrigado por nos receberem de volta! Gostaria de agradecer às bandas que tocaram antes de nós, dei uma conferida em ambas. Queria agradecer a esses caras aqui. Vamos tocar outras músicas, mas quero apresentá-los primeiro. No baixo, vindo de Patchogue, Long Island, New York: David Whitcomb Case. Este cara vem de Minneapolis, Minnesota, e toca guitarra: Danny Beeman. E diretamente de Oconomowoc, Wisconsin, na bateria: Kyle Lee Stevenson. Tocamos aqui uns anos atrás num festival e aqui é muito mais divertido, devo dizer”.

Era normal que a continuação gerasse uma leve caída de energia na forma de SwallowingEverything, única de Monochrome (06).Blacktop a sucedeu e, representando Aftertaste (97), DrivingNowhere voltou a sacudir a casa. Superada uma hora no relógio, mandaramBadMoode Hamilton novamente se comunicou: “Obrigado! Esta foi do álbum Strap It On, de 1990. Vocês não eram nascidos nessa época. Talvez uns dois de vocês… Lançamos um álbum ano passado – acho que foi no ano passado, já me perdi… Enfim, em 2023, chamado Left e ele é sobre a situação política em nosso país, que está uma bagunça. Estou me candidatando à cidadania brasileira”. Brincadeira à parte, ah, se ele soubesse como está a polarização política por aqui…

Ajustes foram necessários com Kyle visivelmente puto pedindo para abaixarem seu retorno da guitarra de Danny e aumentarem o de Hamilton até tudo estar nos conformes para Dislocated. A partir daí, o que rolou foi montanha acima, a começar pela maravilhosa Unsung, porta de entrada de muitos ali para o universo do Helmet. E concluindo o set regular, a não menos potenteTurned Out seria mais um petardo enquanto notávamos o nome do conjunto ser a única decoração projetada no telão, deixando a música falar por si a noite toda.

Agora preste bem atenção à qualidade do encore: Give It, oficialmente fora do setlist de palco; Ironhead; Just AnotherVictim, auto-cover feito junto ao HouseOfPain e parte da maravilhosa trilha sonora de Judgment Night (93); e In The Meantime. O que falar após tal seqüência?Sendo detalhista, das seis últimas, cinco foram do excelente Meantime (92) e ninguém reclamaria se o tocassem também na íntegra. E o que dizer sobre a camiseta de David, com a arte de Beneath The Remains (89), do Sepultura, porém escrito “Seinfeld” logo acima? Vinte e cinco cacetadas, uma hora e trinta e sete minutos de passar o carro e o que ainda esperar do Helmet a não ser que voltem logo?

 

Setlists

Treva– 34’ / Divulgado: 19:50 / Real: 19:50–20:24

Felipe Ribeiro (vocal/guitarra), Chris Wiesen (guitarra), Eduardo Moratori (baixo) e Pedro Hernandes (bateria)

Intro: Meu Sofrer (Queixumes) [Gastão Formenti]

01) Novo Amanhã

02) Onde Morre O Sol

03) Memórias & Reclusão

04) Por Chance, Por Sangue!

05)Recomeço

06)Renasce Em Dor

07) O Passado Que Se Tem

 

Debrix – 37’ / Divulgado: 20:50 / Real: 20:43–21:20

Felippo Teixeira (vocal), Diego Sanctus e FriggiMad Beats (guitarras), Alisson Magno (baixo) e Abel Savoldi (bateria)

01) Stray

02) Push It!

03) Brisa De Espelho

04) Picture Pose

05) Thunderstorm

06) Turn The Page

07) Born Beast

08) Perigo!

09) Nada Pra Falar

10) Bullseye

 

Helmet – 1h37’ / Divulgado: 22:00 / Real: 22:00–23:37

Betty (1994)

01) Wilma’s Rainbow

02) I Know

03) Biscuits For Smut

04) Milquetoast

05) Tic

06) Rollo

07) Street Crab

08) Clean

09) Vaccination

10) Beautiful Love

11) Speechless

12) The Silver Hawaiian

13) Overrated

14) Sam Hell

+

15) Swallowing Everything

16) Blacktop

17) Driving Nowhere

18) Bad Mood

19) Dislocated

20) Unsung

21) Turned Out

Encore

22) Give It

23) Ironhead

24) Just Another Victim [Helmet & House Of Pain]

25) In The Meantime

 
ONSTAGE - Official Website - All Rights Reserved 2017-2025