Texto: Vagner Mastropaulo
Fotos: Flavio Santiago
No Pré-Monsters, imperou averve saudosista das gratas surpresas a estrear em São Paulo
Se,em pleno Monsters Of Rock 2025, MikaelÅkerfeld tirou sarro ao constatar que, mesmo ao completar cinqüenta e um anosde idade na antevéspera, o Opeth, fundado em 1990, era “novo” em meio aStratovarius, Queensrÿche, Savatage, Europe, Judas Priest e Scorpions, o line-up da edição atual alterouseu perfil ao incluirdebutantes. Num escopo “monstruoso”, com o perdão do trocadilho, e retroativamente avançando, o grupo mais “recente” a vira São Paulo pela primeira vez havia sido o Steel Panther em 2015,depois de tocarem em Belo Horizonte e Brasília três e duas noites antes.
Outra mudança significativa: se há um ano, os side shows foram Queensrÿche e Judas Priest [https://onstage.mus.br/website/queensryche-judas-priest-vibra-sao-paulo-20-04-25] no Vibra São Paulo e Opeth eSavatage [https://onstage.mus.br/website/opeth-savatage-espaco-unimed-21-04-25] no Espaço Unimed, ambos sucedendo o festival, a aposta da vez foi justamente nas novidades. E Jayler e DirtyHoney, confortavelmente espalharam os fãs por pista e camarotes em farta distribuição da tênue fronte ira entre o rock clássico e hard rock, respectivamente com pitadas generosas e explícitas de influências de Led Zeppelin e Aerosmith.
Às 20:56 e conforme prometido[https://onstage.mus.br/website/eddie-trunk-e-walcir-chalas-serao-hosts-da-nona-edicao-do-monsters-of-rock-em-sao-paulo], coube a um convidado especial a missão de quebrar o gelo: “Olá, São Paulo! Estão bem? Todos bem? Sou Eddie Trunk, do That Metal Show, e é ótimo estar de volta com vocês aqui no Brasil! Estão prontos para o Monsters Of Rock no sábado? Sim? Temos ótimas bandas para vocês aqui esta noite. Um pouco adiante, o DirtyHoney estará por aqui. E agora, tenho o prazer de apresentar a vocês uma banda nova e jovem que vem fazendo muito barulho aqui no Brasil. É a primeira vez que esta banda está tocando aqui no Brasil. Eles vêm da Inglaterra, são uma ótima banda nova e jovem de rock e muitos de vocês já sabem a seu respeito. E se não a conhecem, estão prestes a conhecê-la…Estão prontos? Mais uma vez: estão prontos? Por favor, recebam no palco, Jayler!” – em tempo, o “co-host”, WalcirChalas, circulavapelo recinto e não fez anúncios.
Na estrada apenas desde 2022 e proveniente de West Midlands, segundo sugerido pelo nome, uma região localizada “no miolo” da Inglaterra, o grupo formado por James Bartholomew (vocal/guitarra), Tyler Arrowsmith (guitarra), Ricky Hodgkiss (baixo) e Ed Evans (bateria) veio a mil por hora com uma intro,por ora irreconhecível até para Shazam e Google, disparada no som ambiente e complementada pelas fortes pancadas de Ed – apostamos que seja a Intro de VoicesUnheard, aguardado primeiro playdo quarteto prometido para 29/05.
Para quem ainda duvidava das comparações ao Led Zeppelin, não houve jeito a partir da entrada de James, pois o efeito imediato foi a lembrança de Robert Plant… Por mais que este escriba tivesse lido a respeito e visto alguns vídeos no YouTube, ao se deparar com a situação in loco, as semelhanças iam além do timbre de voz no ardido “Boa noite!”gritado em português e permeavam:gestual, figurino, coresdas camisas de seda desabotoadas e cortes de cabelo.
Outra comprovação óbvia e, nem por isso menos assustadora: os traços pós-adolescentes nos rostos… Como são jovens! Com Down Below a dar com pau,a catarse só se quebrou no momento em que James detonou na gaita, precedendo final apoteótico na bateria. The Getaway manteve a energia no alto, bem como No Woman, e que tal deixar o vocalista explicar? “Esta próxima música que vamos fazer é sobre a deusa grega do sol. O nome dela é Alectrona”, única retirada do posterior repertório desábado.
Concluída, ele se certificou: “Certo… É uma pergunta meio boba, visto que é nossa primeira vez aqui, mas é a primeira vez que vocês vêem o Jayler? Virão nos assistir de novo?”. Então condicionou um pedido de casamento recebido a um drink e a uma conversa, atendeu aos pedidos por palhetas, fez um auto-elogio a um arremesso preciso e retomou: “Esta próxima faixa é o primeiro single que lançamos de nosso novo álbum. Esta se chama Riverboat Queen”, outra com gaita.
Tal qual a citadaNo Woman, a seguinte seria sobre sofrimento: “Esta próxima que vamos fazer, mais uma vez, é sobre coração partido e tristeza. Mas é uma emoção pela qual todos devemos passar uma vez na vida. ‘Forma caráter’, como dizemos na Inglaterra. Talvez vocês a conheçam. Fiquem à vontade para cantar junto se, de fator souberem. Esta se chama Lovemaker” – última com gaita. Nela, James apresentou seus colegas e, findada a tarefa, absolutamente espontâneo e sem falsa modéstia, pediu barulho para si próprio – foi engraçado! Emendada surgiuI BelieveToMy Soul, blues de Ray Charles oficialmentefora do setlist de palco.
NeedYour Love foi assim apresentada: “Esta próxima música que vamos tocar será nosso novo single. Ele é mais ou menos sobre ficar com alguém por uma noite, aquela energia primitiva que você sente ao ver alguém num bar, clube ou onde quer que seja. Você sente que precisa disso, sabe que não funciona bem com você. Estou tentando chegar a um acordo. Preciso da ajuda de vocês nesta”. Encerrada, Tyler completou: “Só quero dizer que, se vocês gostaram do que ouviram, ela vai sair em 08/04 – porque ele se esqueceu de dizer. Vai ser uma honra, ela vai ser concisa e esperamos que vocês gostem”. Ela foi seguida de Over The Mountain e a saideira, assim apresentada pelo vocalista, merece um parágrafo à parte:
“Obrigado, São Paulo! Infelizmente acho que só temos tempo para mais uma. Para nossa última música, vamos levá-los a um lugar mais feroz e obscuro. É sobre um viking que virá salvar todos nós quando a esperança estiver perdida. Nós o chamamos de The Rinsk. Estão prontos? Façam barulho!” Para o gosto deste repórter, foi a melhor da noite e do set das duas bandas. Ela rolou em versão estendida, contou com um snippet de VoodooChild, da The Jimi Hendrix Experience, com direito a uma linda jamsuper bem encaixada e beirou treze minutos de uma portentosa execução absolutamente viajante.
Resumindo, do aguardado VoicesUnheard, preteriram somenteBittersweet e HateToSee It End e,por fim, como curiosidade, o que acontece que baixistas tocam descalços? Será mania? Steve DiGiorgio (Death ToAll), Jennifer Finch (L7) e agora Ricky Hodgkiss… Não deixa de ser diferente.
Vinte e sete minutos de intervalo e o mestre de cerimônias norte-americano retornou para dar seu recado: “Como estão todos? Estão bem? Que tal uma salva de palmas para o Jayler? Palmas mais uma vez para o Jayler, certo? Mais uma vez, sou Eddie Trunk, é uma honra estar com todos vocês aqui em São Paulo. Obrigado a todos vocês por virem à Audio esta noite. E, é claro, neste final de semana, estamos celebrando o rock real ao vivo num grandíssimo show no sábado. Todos irão no sábado, certo? Beleza, estarei por lá também. Mal posso esperar para ver vocês. E, a seguir, vindo para este palco em alguns segundos, eles que são bons amigos meus vindos dos Estados Unidos”.
Ele continuaria: “Conheço esta banda desde que eles estavam lá no comecinho e, toda vez que os vejo, eles estão melhores e melhores e melhores… Eles acabam de tocar uma música nova para mim no backstage e vocês também vão escutar essa música nova pela primeira vez ao vivo. E, é claro, nós também os veremos no sábado. Senhoras e senhores, São Paulo, estão prontos? Uau, vocês soam bem, mas acho que vocês podem melhorar um pouco. Vamos tentar mais uma vez. Digo, São Paulo, estão prontos? É por isso que o Brasil detona! Senhoras e senhores, por favor, recebam no palco: DirtyHoney”.
A introRock ‘N’ Roll Damnation, do AC/DC, preparou terreno para Marc LaBelle (vocal), John Notto (guitarra), o canhoto Justin Smolian (baixo) e Jason Ganberg (bateria) –em seu primeiríssimo show no posto justamente nesta noite – abrirem a festa com Gypsy. Porém, em seu decorrer, não se ouvia direito o som dos instrumentos a não ser o volume excessivamente alto da caixa de Jason e da voz do frontman. Outra observação: chegava a assustar a similaridade do rosto e do corte de cabelo do guitarrista aos de Ozzy Osbourne quando novo, impressão reforçadapelos óculos escuros.
Deixemos Marc conversar com o público: “Obrigado! Senhoras e senhoras, somos o DirtyHoney, de Los Angeles, California. Bem-vindos ao primeiro show do DirtyHoney em toda a América do Sul. Sim, viemos até aqui, ao Brasil primeiro! Estão prontos para festejar esta noite? Esta próxima se chama CaliforniaDreamin’”, material autoral e não um cover do sucesso homônimo do The Mamas And The Papas. Heartbreaker, por sua vez, foi dedicada às “lindas mulheres brasileiras na casa” e, após Scars, mais pesada nos riffs de guitarra, o vocalista se declararia:
“Amo vocês! Muito obrigado a todos vocês, antes de tudo, por já fazerem nossa primeira viagem à América do Sul tão memorável. Não temos como agradecê-los o suficiente por terem vindo. Todas as vezes em que postamos nas redes sociais, sempre vejo vocês todos dizendo: ‘Venham ao Brasil! Venham ao Brasil! Venham ao Brasil!’. Bem, viemos ao Brasil! Só há um problema: acho que o Justin ainda está procurando por um pouco de erva. Então podemos ficar um pouco altos esta noite? Vamos nessa”, aludindo a Get A Little High.
Praticamente coladas, fizeram TiedUp e Don’tPut Out The Fire, esta um espetáculo à parte, pois, subitamente, o que se viu no gargarejo foi um par de mãos entregando uma banqueta aos fãs ali presentes e, quando ninguém esperava, já se via o frontman pedindo ajuda para acessar a pista e ir cantar de pé no assento metalizado no meio da galera! Ainda deu tempo de voltar ao palco para terminá-la…The Wire foi outra com peso substancial na guitarra e a bela AnotherLast Timeteve ajuda coletiva na cantoria – ela é daquelas composições que vêm para ficar e apenas se tornará mais importante com o passar dos anos.
Won’t Take Me Alive foi sucedida por um solo de John, um tanto diferente, aliás, pois seus colegas permaneceram ao fundo do palco e ainda propuseram um brinde coletivo no meio da demonstração de destreza. Fechando o set regular, mandaram a ótima WhenI’mGone e, regressando para o encore, o vocalista veio com uma oferta: “Oi, Brasil! Queríamos fazer esta noite super especial para vocês então decidimos tocar uma música novinha em folha para vocês. Tudo bem por vocês, Brasil? Eu disse: podemos tocar uma música novinha em folha para vocês, Brasil? Esta se chama Lights Out”.
A saideira? Rolling 7s e, de algum modo estranho e aleatório, sua melodia inicial e ritmo lembraram Change The World, de Eric Clapton. Marc checou: “Quantos de vocês irão nos ver no sábado no Monsters Of Rock? Alguém? Vamos nos divertir lá, espero que tenham se divertido aqui, certamente nos divertimos. Muito obrigado por fazerem nossa primeira viagem à América do Sul tão maravilhosa, sabem? Antes de irmos, tenho uma última coisa a dizer”, e berrou: “Whenyouneed a littlelovin’”, verso da canção, o último cantado na noite.
Com Some Girls, dos Rolling Stones, ao fundo, o povo ia emboracom a certeza de ter visto asestréias de dois conjuntos jovens com potencial de sobra para carreiras brilhantes pela frente e voltadas ao rock clássico, evidentemente precisando de tempo para os processos naturaisde desenvolvimento do estilo e maturação. Havia a expectativa de vê-los novamente em dois dias, mas, ao ir embora, este redator não conseguia deixar de pensar se não havia acabado de testemunhar uma daquelas ocasiões que no futuro se tornarão algo do tipo: “Putz, você também estava nos shows doJayler e do DirtyHoneyna Audio? O que foi aquilo, hein?”. É esperar para ver.
Setlists
Jayler – 1h05’ / Divulgado: 20:30 / Real: 20:57 – 22:02
Intro
01) Down Below
02) The Getaway
03) No Woman
04)Alectrona
05)Riverboat Queen
06)Lovemaker
07) I BelieveToMy Soul [Ray Charles]
08)NeedYour Love
09) Over The Mountain
10) The Rinsk [Com Snippet De VoodooChild, da The Jimi Hendrix Experience]
Outro: Changes [Black Sabbath]
DirtyHoney – 1h11’ / Divulgado: 22:00 / Real: 22:30 – 23:41
Intro: Rock ‘N’ Roll Damnation [AC/DC]
01)Gypsy
02)CaliforniaDreamin’
03)Heartbreaker
04)Scars
05)Get A Little High
06)TiedUp
07)Don’tPut Out The Fire
08) The Wire
09)AnotherLast Time
10)Won’t Take Me Alive
11) Solo De Guitarra
12)WhenI’mGone
Encore
13)Lights Out
14) Rolling 7s
Outro: Some Girls [The Rolling Stones]










